Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Caos Avaliativo permanece!

Não é fácil, não é mesmo. Por muito que tente manter uma certa serenidade e descontracção, ainda que relativa, tudo o que possa ser mau e desagradável vem ter connosco nesta profissão. Esta semana já somei quatro reuniões, uma de encarregados de educação, outra dos cursos EFA, outra de Dt's e outra ainda de departamento. Se for ousado e somar todas as horas em que estarei com uma turma numa visita de estudo na sexta-feira, julgo que a juntar ao horário habitual, já terei excedido as 35 horas semanais. Note-se que, neste panorama bem preenchido, horas dedicadas ao trabalho individual para as turmas serão de zero. É a triste realidade do professor actual. Para a próxima semana serão mais umas quatro reuniões, pelo menos até ao momento. O dia começou em grande, após um bloco de 90 minutos de um esforço titânico para cumprir programa disciplinar, contra o normal desinteresse dos alunos, eis que fico a saber que duas alunas de uma das minhas direcções de turma se envolveram com outras duas de outras turmas, numa acalorada luta corporal. Adivinhem quem será com toda a certeza instrutor do procedimento disciplinar??? Adorei começar bem o dia.

De tarde tenho uma reunião de Dt's em que uma entendida personalidade da Direcção Regional se dignou a prestar esclarecimentos sobre a nova lei dos alunos com Necessidades Educativas Especiais. Mais secante dificilmente poderia ser e do pouco que consegui ouvir, dado o baixo e monocórdico tom de voz da jovem, impossível de ouvir na parte traseira da sala e óptimo para embalar (não consegui sequer imaginar esta senhora a dar uma aula de 90 minutos a uma turma do básico), juro que fiquei com mais dúvidas do que aquelas que já tinha. Tenho absoluta certeza de que, tirando o facto de todos termos ficado mais esclarecidos de que ao director de turma caberá ainda mais trabalho, papéis e relatórios, o conteúdo em si do que foi ali dito, foi quase imperceptível. As cabeças iluminadas que estão lá em cima não têm mesmo noção da realidade de um professor no seu dia-a-dia escolar. É impressionante como se pode ser tão infinitamente estúpido ao ponto de não se perceber que toda esta complexidade legislativa e burocrática só pode levar a uma caótica imersão em papelada estéril.

Passo para a nossa reunião de departamento (eu e mais colegas tivemos forçosamente de interromper a senhora, pois esta não se calava mais e vimos jeito daquele massacre se perpetuar no tempo) e entre diversas informações, parece que questões relativas à avaliação permanecem em segredo. O mesmo será dizer que, o nosso Ministério prefere continuar a "brincadeira" e trata secretamente uma questão fundamental da nossa vida profissional. Talvez esse secretismo seja uma manobra política e assim apazigue um pouco a turbulência e as reclamações dos docentes. Uma coisa é certa, independentemente de tudo, fica claro que, caso os professores contratados não sejam avaliados, estes não poderão concorrer no próximo ano lectivo. Já viram golpe mais baixo do Ministério que nos tutela! Os professores contratados são então os reféns utilizados pelo Ministério, as cobaias manuseadas por forma a impingir uma avaliação forçada por parte das escolas que, com toda a boa fé, não pretenderão de todo prejudicar os colegas contratados. É portanto o Reino do Absolutismo, em que Maria de Lurdes e respectivos concubinas mais toda a comitiva umbilicalmente ligada acima e abaixo na rede das hieraquias, vestem a pele de Luís XIV e mostram quem manda afinal.

Realmente sinto-me mesmo desencantado com esta profissão. Como se não bastasse tudo isto, o dia de trabalho termina (na escola, note-se!), com uma novidade que, no meio de toda a interessante panorâmica, ainda não havia dado conta. Pois é, após vários anos de "congelamento salarial", eis que me apercebo que, com toda esta reformulação de escalões, só irei mudar de escalão (se a minha avaliação assim o permitir), em 2012. Não é motivante?

Durante estes anos, os professores foram a classe profisional que perdeu mais poder de compra mas, ao que parece, essa situação manter-se-á por mais uns belos anos. Afinal, em 2012 vou estar a receber exactamente o mesmo montante. É extraordinário depreender quanto dinheiro de todos os docentes deste país, o Governo vai meter ao bolso. Não há dúvidas que, tenho todos os motivos para me sentir motivado profissionalmente. Quanto mais me apercebo da triste e injusta realidade do que é tentar viver de forma honesta neste país, mais começo a dar razão a quem sempre prevaricou e se soube aproveitar do sistema. É triste dizê-lo mas este país não tem solução à vista e isto não é uma visão pessimista ... é realista.

 

PS: Já agora, para quem quiser ler, deixo uma sugestão até interessante para o nosso Governo: porque não dotar todas as instituições de  ensino público de uma área mais ou menos aceitável de uns quantos hectares de arvoredo?! Era uma forma de encaminhar os nossos alunos para um espaço aprazível de relaxamento e inspiração, após agressão física e verbal aos docentes que ousassem adverti-los ou quiçá, retirar-lhes o telemóvel na aula. Por outro lado, toda a madeira poderia ser utilizada na produção das toneladas de papel que o nosso Ministério solicita às escolas. Os alunos submetidos a sanção disciplinar poderiam, por exemplo, dedicar-se a semear novas árvores no local das abatidas e o ciclo decorreria com equilíbrio e normalidade. Fica a sugestão!

 

 


publicado por Brama às 19:00
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1 comentário:
De Denise a 11 de Abril de 2008 às 03:09
Pois é, Brama... Altamente motivador. É nesta altura do ano em que a canseira se torna insuportável, @s menin@s se lembram de avariar e nós começamos a ficar lelés.
Estou contigo. E não te esqueças: um olhar atento para os pormenores soprados que nos dão o alento para caminhada ;-)
P.S. Subscrevo a tua sugestão :)


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