Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Sentado sobre a campa

Fui visitar a minha prima, é verdade que fui ... ao último sítio onde se visita alguém da nossa idade, com projectos como tem alguém da nossa idade, convicções e motivações inabaláveis como é costume ter alguém da nossa idade, vontade de continuar apesar dos aspectos mais ou menos positivos, mais ou menos negativos, como é normal que tenha alguém da nossa idade, com vontade de rir, de chorar, de gritar, de resmungar, de sentir, de amar, ... 

Passado quase um ano, algo me impeliu a fazer-lhe esta visita passageira. O dia de ontem esteve reconfortante, o ponto de mudança para uma primavera mais acolhedora, nem frio nem calor. Entrei e senti-me acompanhado por um Sol que ainda hoje me cumprimentou, mais um dia para agradecer a sua radiosa luminosidade, mais um dia para perceber a sua força singular. Entrei e caminhei no sentido do seu último repouso. O Sol acompanhou-me também ...  e o silêncio ... o silêncio do espaço envolvente, o silêncio de um lugar inanimado, vazio de vida mas estranhamente cheio de paz, o silêncio daqueles que se calaram para sempre, despojados da sua identidade, do poder  de voltar a gritar uma e outra vez.

Aproximei-me, observei com atenção alguns pormenores novos e as fotografias expostas cheias de uma vida que já não é ... agora vazias de significação, escarnecendo ante a fugacidade da vida.

Sentei-me um pouco e quedei-me olhando em redor demoradamente. Senti o mármore quente. Não voltei a olhar as fotografias ... valem o que valem, efémeras como tudo o que tem maior ou menor longevidade nesta espécie de dimensão terrena. Olhei em frente, no vazio ... observei as outras campas, os pontiagudos verdes ciprestes, finalmente concentrei-me na brancura dos jazigos em frente, batidos por um Sol um pouco mais forte. Veio-me à memória os momentos de alucinação global do fatídico dia de Junho do ano passado e revi com clareza a imagem da minha prima até ao exacto momento em que a vi descer à terra, para sempre. Lembrei-me repentinamente da sua voz e do tom revoltado e pouco amigável como se pronunciava face a quase tudo o que não suportava. Lembrei-me das discussões absurdas que tínhamos quando crianças um com o outro e das pueris estratégias que já em adulta utilizava para fazer recair sobre si as atenções. Lembrei-me de tudo isso e de muito mais ... dos mil dilemas da sua personalidade retorcida agora tão distantes e afinal ... perante a morte, tão insignificantes. Afastei estes pensamentos ... não quis pensar mais neles. Voltei a observar uma vez mais as imagens, as palavras escritas na lápide ... senti-me reconfortado por esta visita, por este momento a sós. Levantei-me e saí da tranquilidade daquele espaço, saí para outra dimensão ... a dos horários, a dos compromissos, das funções, das despesas, dos afazeres do dia-a-dia, do amor e do desamor pelas obrigações terrenas ... a do conceito de vida criado e alimentado pelo Homem moderno com o bom, o mau e o assim-assim ... mas o único conceito que por enquanto conhecemos.

 

                                                                                                                                          Brama


publicado por Brama às 23:18
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4 comentários:
De Maria a 5 de Junho de 2008 às 10:14
Este post veio mesmo de dentro... nem sei que te diga... um GRANDE beijinho e abraço reconfortante!


De pinguim a 8 de Junho de 2008 às 08:02
Já me sucedeu, e mais que uma vez, gostar muito da solidão que encontro na paz dos cemitérios; quando vou por imperativo da morte de alguém, não consigo dissociar uma imagem, de despedida, sempre terrível...
Mas quando se vai por gosto, dá para fazer essas introspecções ao passado e a pessoas a quem muito quisemos e sentimo-nos estranhamente recofortados.
Abraço.


De DyDa/Flordeliz a 9 de Junho de 2008 às 18:37
Gosto da palavra "visitar" porque me lembra o presente mesmo que seja para recordar o passado.
e bom fim-de-semana!


De Graduated_fool a 12 de Junho de 2008 às 12:30
Gosto e odeio visitar cemitérios. Sinto uma tristeza e, ao mesmo tempo, uma calma, quase uma candura. Uma paz, certamente.


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