Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Mais um dia

Há muito que se sentia morto.

Na verdade só os batimentos cardíacos o mantinham preso à vida de alguma forma.

Mas não queria continuar assim, queria mesmo deixar de sentir de vez. De uma vez por todas queria pôr um ponto final a tanto sofrimento. Estava decidido a fazê-lo naquele mesmo dia e isso deixou-o algo tranquilo. A ideia de imaginar-se noutro local qualquer que não aquele apaziguou-o.De certa forma estava ansioso por fazê-lo, só não sabia como. Temia o sofrimento físico, temia agonizar sem conseguir ir até ao fim. Mas agora já tinha decidido que o faria. Como voltar atrás?! ... isso é para os fracos. Achava-se suficientemente homem para não voltar atrás. Não, não hesitaria sequer. Era naquele dia ... afinal que mais lhe traria esta mísera existência? Os dias eram de facto todos iguais. Os homens haviam-no desiludido ... nada lhe restava a não ser desaparecer e deixar de pensar. Já não se recordava de sorrir há muito tempo. Quando teria sido a última vez?... depois lembrou-se que tinha sido no dia do nascimento do seu único filho ... tinham passado vinte e dois anos. Sim ... foi esse o último dia em que se lembra de ter sorrido. Não voltaria a ver o seu filho desde esse momento e mais tarde, soube que este teria falecido numa brincadeira de adolescentes com motorizadas, numa quinta. Afastou esse pensamento e concentrou-se na sua decisão. Ergueu-se da cama, bebeu avidamente um copo de água que tinha mesmo a seu lado, sobre uma mesinha de cabeceira e fumou um longo cigarro demoradamente. Sentia os membros tensos e sustentava um olhar vítreo. Foi à cozinha, pegou numa faca com uma boa lâmina e dirigiu-se para a casa-de-banho. Ao aproximar-se do espelho sobre a bancada, observou fixamente o seu rosto. Não gostava dele, tinha o olhar vazio, os lábios ressequidos e umas longas rugas marcadas, desde os cantos dos olhos. Não queria mais aquele rosto, para dizer a verdade, a sua expressão inexpressiva repugnava-o. Esticou um braço e com a ponta da lâmina começou a desenhar junto ao pulso e depois, pelo braço acima, uns traços e uns cortes. Não lhe doía, até gostou de sentir o sangue quente inundar-lhe a pele para posteriormente, pingar na bancada. Não iria demorar muito, só quis saber primeiro o que sentia, ao fazer uns pequenos cortes nos braços. Em breve trespassaria o peito junto ao coração com aquela lâmina grossa e afiada. Talvez lhe doesse mas tentaria ser rápido. Tocou a campainha. Sobressaltou-se e largou a faca sobre a pia. Aproximou-se da porta nervosamente, apercebeu-se de que na entrada do prédio estavam duas pessoas. Ao perguntar quem era, percebeu então que dois amigos seus, que já não via há alguns meses e que viviam do outro lado da cidade, lhe tinham vindo fazer uma supresa, convivando-o para jantar. Estavam visivelmente bem-dispostos, notava-se nas suas vozes estridentes. Respondeu de modo abafado que esperassem uns minutinhos que já desceria. Limpou nervosamente as manchas de sangue do braço, vestiu outra camisa e um casaco por cima, pôs um pouco de perfume para disfarçar o cheiro acre do sangue e desceu a escadaria.

 

Brama

 

sinto-me: negro

publicado por Brama às 20:43
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2 comentários:
De Graduated_Fool a 3 de Abril de 2009 às 01:06
Andas a imitar os meus textos deprimentes, hã!? lol

Gostei, gostei muito.




De pinguim a 3 de Abril de 2009 às 01:28
O poder da Amizade, sobrepõe-se à morte...


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