Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Grandes Amigos

Reencontraram-se uma vez mais naquele aeroporto. Era assim desde há já alguns anos. Desta vez não se viam há mais de seis meses. Estavam nervosos, porém ansiosos. Deram um abraço formal, mas os olhos luminosos de ambos não esconderam as saudades que tinham. Saíram para fora daquele espaço frenético de encontros e desencontros. Cá fora, sentiu o calor sufocante de um território tão diferente das suas nórdicas latitudes. Caminharam juntos, lado a lado, em direcção a casa, não muito longe daquele ponto de ligações internacionais. Falaram do emprego, da família, do estado do tempo ... as conversas triviais de sempre. Evitavam olhar-se nos olhos. Interrompeu a amena conversa ... no caminho apercebeu-se que, numa das ruelas, havia um grande ajuntamento de homens, mulheres e crianças que circundavam e conspurcavam três jovens mulheres desnudas. Aproximando-se mais um pouco observou que as três raparigas estavam atadas e presas nos braços e nos pés e entre si, tinham as cabeças baixas cobertas pelo emaranhado dos cabelos negros e exibiam sinais evidentes de maus tratos nos frágeis corpos. Teve dificuldade em visualizá-las porque a população local acotovelava-se, sedenta de cuspir impropérios e atirar-lhes pedras. Possivelmente teriam cometido adultério ... nunca chegou a saber. Olhou em redor e no meio da confusão ali gerada, constatou que um grupo de miúdos que não teriam mais de oito ou nove anos, riam e brincavam com armas de verdade e simulavam atirar uns contra os outros, perante a indiferença dos adultos que ali se encontravam. Sentiu um nó na garganta e uma dor aguda no peito. Apressaram-se em sair dali e afastaram-se. Caminharam mais um pouco e já estariam perto. Meteram a chave à porta e fechando-a atrás de si, abraçaram-se transpirados pelo acelerado estado de ansiedade em que se encontravam  e descontroladamente, mergulharam os lábios um no outro. Não aguentariam muito mais tempo sem aquele momento e ... ali, deram largas à sua "amizade", o tipo de amizade que a lei local não aceita nem compreende. Ali no escuro ... puderam dar luz àquilo que eram e que sentiam.

Brama

 


publicado por Brama às 23:10
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2 comentários:
De Graduated_Fool a 3 de Abril de 2009 às 01:05
Pois, infelizmente terá de ser assim ainda por muitos e muitos anos.


De pinguim a 3 de Abril de 2009 às 01:25
Poderoso, mas tão triste. Real, mesmo muito real...
Abraço.


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