Sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

Por uma questão de ... EXCELENTE!

Depois de um looongo dia de trabalho, a noite foi passada numa extrema indisposição. Apesar de dois comprimidos tomados, que aparentemente teriam acalmado o estado gripal, eis que a noite se insurge a par de um crescente e agonizante estado febril. A ... curta noite de sono, instável, de uma latejante dor corporal e um escaldante estado febril, foi estranhamente interrompida. No meio do frenesim da criatividade e do delírio nocturno, eis que subitamente acordo com a estranha sensação do fim ... uma dor lancinante percorre a inflamada garganta, há uma aterradora sensação de que o ar não entra, como se tivesse uma tampa a impedir o oxigénio de invadir os alvéolos pulmonares e refrescar o massacrado interior. Corri de imediato para a casa-de-banho e demoradamente encharquei a cara de água ... e a testa ... parecia enlouquecer de febre e ... nas fontes sentia os doridos batimentos cardíacos, num vaivém torturador. Nunca tal me tinha ocorrido, ter a sensação que não respirava mesmo. Voltei à cama, mas já não adormeci até a manhã despontar e recomeçar mais um dia de trabalho.As dores físicas tinham-se apoderado do meu debilitado estado físico, estive quase duas horas inerte na cama, inebriante de ardor e delírio, porém vigilante ao cadenciado passar dos segundos, dos minutos ... senti o fresco do amanhecer ... às sete da matina ouvi o som do despertar, mas não consegui acorrer de imediato ... as dores eram imensas e sustentei algum tempo o desagradável ruído. Tive quarenta minutos sem me mexer, a conjecturar sobre o que fazer, ir ao médico, levantar-me e ir trabalhar, não fazer nada e ficar ali, inerte a ver o dia ganhar claridade e calor e ... depois justificar com o artigo 102, como era costume nestas situações em que, estamos tão mal que nem vamos ao médico. Pensei ... conjecturei ... pesei prós e contras ( que irritação ... detesto mesmo indecisões), ali estive até não resistir mais e ... no momento em que não podia deixar mais minutos passarem, correndo o risco de não chegar a tempo e ter mesmo falta, levantei-me num ápice. Na embriaguez de uma calcinante e firme dor de cabeça, dirigi-me cambaleante à casa-de-banho. Tomei um duche quase frio, que me revigorou um pouco, mas não acalmou a ardente dor de cabeça. Escusado será dizer que a aula não correu nada bem, oitavo ano, já estão a imaginar!!! ... mal conseguia falar e a comichão na garganta não me deixava e só me fazia tossir compulsivamente. 

Antigamente, mesmo nas turmas mal comportadas, neste tipo de situações, perante um pedido humilde do professor para que os alunos mostrassem alguma consideração e empatia para com o seu estado de saúde ... havia algum respeito. Agora, após a questão mais óbvia "_Se está doente porque é que não ficou em casa?", segue-se um panorama comportamental muito semelhante ao costume, muita conversa paralela, brincadeira sistemática, que leva a chamadas de atenção contínuas, comunicados nas cadernetas, dirigidos aos encarregados de educação e furtivos trabalhos de casa e na aula, sob a indiferença dos alunos. Fico deveras estupefacto com a falta de educação dos miúdos dos dias de hoje. Para dar um toque ainda mais irónico à situação, convém referir que a aula em causa foi de Formação Cívica e estávamos nós a analisar os deveres dos alunos, normas relativas a justificação de faltas ... Interessante, não é?!

E porque é que eu fui dar aulas naquele estado?!

Fui por uma questão de orgulho pessoal, mais do que tudo. Passo os dias enfiado na escola, das oito horas e dez minutos da manhã até às nove, nove e meia da noite ... tem sido este o ritmo sistemático ... uma espécie de escravatura no ensino. Apesar de ainda não ter começado o curso EFA à noite, entre reuniões e formações, inevitavelmente passo lá todo o dia. Tenho feito muitas horas extraordinárias até ao momento ... e era só o que faltava, no momento actual, ficar manchado já em outubro com uma falta. É que, de acordo com as normas de avaliação traçadas ministerialmente, um professor pode ser maravilhoso, um herói nato e abarcar sem falhas todos os pormenores requintados do seu complexo processo avaliativo, mas se, porventura tiver o azar de ter uma única falta ao serviço lectivo (ex: preso no elevador, o carro sem bateria ou com um furo num pneu, queda de um meteoro de pequena dimensão sobre o carro em andamento provocando lesões graves na viatura, paragem forçada pela polícia para solicitação de documentos, tropeção na escada do prédio com ferida exposta na rótula ... ou, estado gripal fervoroso capaz de nublar o raciocínio ...), já não vai ter excelente na sua avaliação, penalizando-o em termos de progressão na carreira. Oh ... que chatice tamanha!

Claro que não estou à espera de ter excelente, porque:

1- Não vou ser professor titular tão cedo, nem gostaria de ser, não gosto de avaliar os meus colegas já submetidos a estágios e avaliação pedagógica durante o curso;

2- Não estou disposto a sucumbir para alimentar um sistema que não tem pernas para andar, por não se ocupar de facto do que, no ensino é mais importante;

3- Em Portugal, o esforço extremo muito dificilmente é reconhecido e em termos remuneratórios, não vai ser de certeza;

4- A listagem para obtenção de excelente é tão vasta que, só de ler ficamos desmotivados e mal dispostos e a achar que Deus não conseguirira tanto.

No entanto, acho lamentável que um bom profissional tenha de ser penalizado logo na sua avaliação por uma mera questão de poder faltar por factores que, podem até ser exteriores à sua vontade e não contornáveis. Por essas e por outras e ... pelas minhas próprias convicções, não faltei mesmo e arrastei-me o mais que pude ... fui e fui mesmo. Noutra altura poderei ter uma opinião contrária e não querer saber ... mas agora quis ... vou fazer os possíveis para, pelo menos na assiduidade não tenham de pegar.

 

Agora estou muito melhor ... cada mais mais me convenço que, pelo menos, o meu sistema imunológico, se não for excelente, deverá ser muito bom. Agora sinto-me tão fresco, que me parece impossível a noite anterior.

                                                                                               Brama

                                                                                  

 

 

sinto-me:

publicado por Brama às 15:54
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2 comentários:
De graduated Fool a 12 de Outubro de 2007 às 17:19
Sinceramente, não vejo a lógica de teres ido trabalhar. Ora dizes que já te estás a borrifar, que faltas o que tiveres de fatar, etc...ora vais doentíssimo como se fosse de extrema importância as aulas do dito dia... não entendo.
A verdade é que refilamos, refilamos, mas acabamos por ir na onda da senhora ministra. Não faltem, diz ela. E nós não faltamos mesmo que arrastados.


De The Tales Maker a 13 de Outubro de 2007 às 16:23
Estou a ver que esta semana foi má para os 3. Para ti, para mim e para o graduated. O pessoal engripou-se todo. Raios parta estas mudanças de tempo. Ainda bem que já estás melhor.
Quanto ao teu trabalho, pois, a vida de professor, ano após ano é cada vez mais f0d1d@. Raios parte os nossos governantes.


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