Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Ainda mexo ... mas pouco!

Não vou estender-me muito em blás blás ... tive um dia de escravatura no ensino e penso escrever uma carta ao Ministério a exigir o pagamento de horas extraordinárias. Neste momento, comprova-se, não sou docente, sou escravo num novo sistema feudal apurado, associado à crescente máquina neoliberal do século XXI, não propriamente em prol de uma sociedade mais rica, mais produtiva, melhor formada, mas sim, em prol de um conjunto de objectivos meramente estatísticos, de um corropio burocrático sem precedentes.

Entrei ao serviço, como todos os dias, às 08h10, tive aulas até às 13h10, almocei, às 14h30 iniciava aquele que já lidera como o momento de ouro do surrealismo na minha vida de ensino, uma reunião de RVCC - EFA's (durante a reunião pedi, em desespero de causa, que uma colega me beliscasse, não fosse eu estar morto há algum tempo e presenciar aquele mau momento do além). Após esta reunião, da qual saí, por volta das 17h, um pouco zonzo, iniciei outra às 17h30, correspondente à minha outra direcção de turma. Como não existem salas que suportem tanta gente (entre encarregados de educação e outros pais, alunos e todo o conselho de turma), a reunião decorreu mesmo no refeitório da escola, interessante claro, sobretudo porque à mesma hora decorriam actividades desportivas mesmo por cima de nós (onde é o ginásio), ouvindo-se frequente pontapear de bolas, ruídos bruscos, que juntando-se às diversas vozes que se ouviam em simultâneo, provocaram um verdadeiro festim auditivo. Esta reunião, presidida por moi même, terminou, passava pouco das 20h. Saí com a sensação de subito abalo e a precisar de uma rápida injecção de oxigénio. Como não tinha nada para comer em casa, optei por comer mesmo na escola e saí, passava pouco das 21h, 21h30. Feitas as contas às horas efectivamente gastas a trabalhar, somam-se quase 11 horas. Deveria vir logo para casa fazer a acta da reunião, mas não o fiz, grande malvado, a fugir ao trabalho. Os malandros dos professores tentam sempre furtar-se ao trabalhinho, grandes sacanitas. Se este fosse o ritmo diário, ao fim de cinco dias de aulas, trabalharía na escola 55 horas, fora todo o trabalho que, por falta de condições de trabalho no local de trabalho, ainda teria de levar para casa. Vejamos, mais 20 horas do que as efectivamente pagas ...isto é muito dinheiro.

Não é assim todos os dias, não é ... mas é quase. E garantidamente, se todos nós somarmos as horas de trabalho efectivo para a escola, excedemos largamente as 35 horas efectivamente pagas. Assim, não trouxe logicamente, nada para fazer para casa e no próximo fim de semana, voltarei a não fazer nada, há que seguir os normativos superiores e só trabalhar as 35 horas.

 

Quero ser um funcionário público igual aos outros, cumprir as minhas horas no local de trabalho e voltar para casa sem nada, para a minha vida pessoal.

 

                                                                                                                                             Brama

 


publicado por Brama às 22:40
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10 comentários:
De Maria a 18 de Outubro de 2007 às 09:55
Mê Santo... anda cansadinho!! Realmente... manda-os dar uma volta e pronto. Os alunos de burros não passam, por isso...


De Brama a 18 de Outubro de 2007 às 10:59
Eu mandava ... mas como não posso ter falta ... não podia chegar à reunião de pais e dizer: _Bem, meus caros, como já trabalhei praticamente 8 horas, ultrapassando 1 hora das efectivamente pagas no dia ( 35 horas a dividir por 5 dias dá 7 horas por dia, que são pagas), a reunião já não se realizará ou então, outro meu colega presidirá a toda esta panóplia de gente, porque eu estou extremamente cansado e já não consigo falar mais hoje, ok? Muito obrigado pela vossa compreensão.


De mar a 18 de Outubro de 2007 às 14:33
Pois,pois... mas tu ainda te podes permitir, algumas vezes, não trabalhar mais do que as 35 horas, eu quase nunca consigo. Acho que quem tem a pressão dos exames nacionais no final do ano lectivo e lecciona duas turmas de CEF's, não consegue mesmo trabalhar menos de 60 horas por semana. Isto só para a escola, não falando das pessoas que para além disto têm filhos e casa para tratar, mas isso não conta, não é??!! Vê o meu dia de ontem: 6.45h despertar: 8:30h - 13.30h aulas. Meia hora para almoçar, tirar faltas e pôr papelada a fotocopiar. 14h reunião de departamento; 15.30h, acção de formação promovida pela escola sobre a utilização dos audiovisuais na sala de aula; 16.30, reunião do CEF; 18.30 às 21.30h, acção de formação em Olhão. Regressei a casa por volta das 22.15h, sentei-me à mesa a preparar as aulas do dia seguinte, porque não existem manuais nos CEF e é o professor que todos os dias, informaticamente, prepara as aulas para fotocopiar para os alunos, com texto, com explicações, com questionários orientadores da aprendizagem, com exercicios de aplicação de conhecimentos..., isto tudo depois de perdermos algum tempo a formar o puzzle de cada cabeçalho para cada folha, pois obrigatoriamente tenho que colocar os logótipos do ministério da educação, o da escola, o do curso, o do PRODEP, o da disciplina... coisinha para me ocupar cerca de hora e meia. Por volta da meia noite pude comer uma maçâ, enquanto me penalizava por ainda não ter tido tempo para corrigir os textos que tão graciosamente temos que pôr os alunos a produzir na Oficina de escrita e que têm que ser avaliados e corrigidos, e melhorados. E não é um texto, não, são só cinquenta textos. Sem grandes motivos de desconcentração só demoro três ou quatro horas a corrigir os textos. Penalizo-me também porque não tive tempo de fazer quatro planificações bonitinhas para as aulas que vou dar amanhã, como a nossa ministra "pediu"... Ainda tive a ousadia de lamentar não ter tido tempo de me enroscar com o meu marido no sofá, de falar com ele sobre o meu dia, de não ter forças para fazer amor antes de dormir... não sei se poderá parecer estranho para alguém, mas à uma da manhã eu estava mesmo cansada! Desculpa lá o desabafo. Beijinho


De Brama a 18 de Outubro de 2007 às 23:19
Pois ... eu compreendo perfeitamente o que queres dizer ... eu gostava era que cada professor deste país fizesse um relato destes, de um dia de trabalho, cada um de nós, num papel enviasse ao ministério, ou por mail ... ou melhor, cada um fizesse semana a semana a relação de horas extraordinárias dadas, sim dadas, porque ninguém as paga e enviasse semanalmente essa mesma relação para o ministério, ou houvesse forma destas serem publicadas e expostas a toda a gente. Essa coisa de me poder permitir a não trabalhar mais do q as trinta e cinco horas, este ano ainda não foi aplicável. Todas as semanas tenho tido trabalho que supera as trinta e cinco horas e não é pago, simplesmente tenho resistido a fazer o mais possivel e neste momento sinto que estou a acumular trabalho, mas não me vou enervar. Só posso fazer o que consigo, dentro daquilo que ministerialmente está definido. Acredita, se todo o pessoal docente cumpri-se escrupulosamente as 35 horas semanais efectivamente pagas, este país parava, era um enleio de trabalho completo, tudo por fazer, o caos ... o problema é q s pessoas vão falando e falando e no fim, fazem tudo para que as coisas corram bem e a imagem a exteriorizar seja óptima. Claro está, se os professores não se importam de trabalhar horas a mais, de que se queixam então?! não faz sentido.
eu continuo a dizer que está mais que na hora das trinta e cinco horas estarem marcadas nos nossos horários, para cumprir paenas e só essas e ir para casa sem nada, sem pastas, testes, fichas, planificações, actas,pct's e outras merdas, está mais que na hora. quero ser um funcionário público igual aos outros, não quero este tipo de tratamento vip!


De Brama a 18 de Outubro de 2007 às 23:30
Os erros que possam existir no meu anterior comentário, prendem-se com o facto de eu estar sujeito a um cansaço extremo ... depois de ler, dei-me conta de alguns. Onde se lê: "se todo o pessoal docente cumpri-se ..." , deverá ler-se: "se todo o pessoal docente cumprisse". Onde se lê: "...o problema é q s pessoas", deverá ler-se: "... o problema é que as pessoas". Onde se lê: " cumprir paenas e só", deverá ler-se:"cumprir apenas e só". Além destes, existem algumas frases mal estruturadas e outras que principiam erradamente com letra minúscula. Antes que algum olho clínico mais aguçado me acuse, as minhas sinceras descuplas ... digo, desculpas.


De graduated Fool a 19 de Outubro de 2007 às 18:05
Sim, e o que pensas fazer? Alguém tem de começar.


De Brama a 19 de Outubro de 2007 às 23:31
Já pedi à minha presidente que passe a marcar as 35 horas no horário, há resistência porque as pessoas não querem marcar o ponto, mas eu quero.
Já dei o toque à coordenadora de departamento para redigirmos uma carta em nome de todos, a expôr a situação e a pedir pagamento das horas que trabalhamos a mais.


De The Tales Maker a 18 de Outubro de 2007 às 15:31
Tadinho. E ainda agora isto começou. A ver se descansas então no fim-de-semana.
Beijos


De Graduated Fool a 18 de Outubro de 2007 às 22:07
A verdade é que te queixas, queixas mas depois vais doentíssimo trabalhar só para não dar uma falta. Portanto, entras na onda, acabas por ter medo, acabas por ajudar a tapar os muitos buracos da manta do ensino.

Olha, eu levanto-me às 6h da manhã quase todos os dias, demoro mais de 2h no trânsito infernal diário, quando chego atrasado por causa desse trânsito tenho de pôr artigo e faltar. Sim falto, sim não sou um professor com avaliação de "excelente", porque esses não podem faltar. Que chatice, oh que pena. Faltei um tempo e já não sou excelente! Um tempo de atraso e já desço automaticamente de categoria. Um horror!Quem me manda morar longe? Quem me manda meter-me no trânsito? Quem me manda haver acidentes na estrada que me impossibilitam de dar o primeiro tempo, se não for os primeiros.
E a gasolina? E o desgaste do carro? E a portagem na autoestrada? E a portagem na ponte?
E em relação às horas de trabalho semanais nem se fala. Acordo de noite e chego a casa, quase sempre, de noite. O sol vejo-o quando vou à entrada da escola fumar. Não é maravilhoso?
E para a semana, com reuniões intercalares à noite, tendo em conta que tenho uma por dia, 8 turmas, já se pode ver quantas noites lá passarei.
Portanto NÃO SE QUEIXE, SEU DESGRAÇADO!!!


De Brama a 18 de Outubro de 2007 às 23:39
Tal é isto ....agora uma pessoa já não se pode queixar ... cada um tem as suas coisas, eu não tenho oito turmas mas tenho duas direcções de turma, o que também não é fácil. Entro todos os dias às 08h10 e saio quase sempre depois das 21h, ou com reuniões, ou acções de formação, operações de cosmética ... e ainda nem comecei o EFA secundário. Já pedi um colchão para algumas noites em que não me dê jeito vir a casa e possa ficar logo lá para a manhã seguinte. a distância é curta, mas assim sempre se poupa uns minutos para descansar. barafustem nas reuniões ... não tenho feito outra coisa e já pedi à minha presidente que façam os possíveis para que as 35 horas estejam mesmo todas marcadas; há quem prefira não picar o ponto, eu prefiro picar o ponto e vir calma e serenamente para casa porque cumpri as minhas horas. O que não ficar feito não é da minha responsabilidade, impossibilidades resultantes de sobrecarga de trabalho e funções para 35 horas semanais.


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