Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Objector de Consciência no Ensino !

Numa altura em que estamos prestes a iniciar um novo ano lectivo cheio de aspectos agradáveis e altamente motivantes para os professores que sempre se empenharam em ser verdadeiros profissionais nestas questões, tenho pensado e até trocado umas impressões acerca da possibilidade ou não de fazer uso da objecção de consciência na questão da avaliação de professores.

Esta questão ganha dimensão quando se compara, por exemplo, com a recente polémica dos médicos que são objectores de consciência na questão da realização de abortos. Num momento em que o sim ganhou no referendo à despenalização voluntária da gravidez, alguns profissionais da saúde, alegando princípios e valores pessoais (que não é propósito discutir), continuam a não realizar abortos, o que pode ser justificável se, posteriormente não o fizerem a nível privado, correndo o risco de cairmos aqui numa contradição de princípios. E porque não dar a mesma liberdade aos docentes que vão ter o tal estatuto nobre e segregante de titularidade, quando se trata da questão da avaliação dos colegas de trabalho, meros e singelos professores, já para não falar dos outros, aqueles que por serem reles contratados, nem professores são, os pomposamente designados “candidatos a professor”?

Alguns dirão já, sobretudo quem está fora do ensino e da forma meticulosamente perversa como foi “cozinhada” a fórmula mágica a pôr em prática na avaliação de desempenho profissional dos docentes, que não entendem o porquê de tão grande alarido com esta questão, se afinal noutras profissões a avaliação é uma prática corrente e até benéfica para as aprendizagens e a melhoria profissional. Outros até consideram muito positiva esta avaliação para que os professores, esse bando de gente malfeitora e preguiçosa que “falam de barriga cheia”, que só têm privilégios, muitas férias e não fazem nada, comecem finalmente a fazer; estes são os tais que não sabem mesmo do que estão a falar e a maior parte das vezes, generalizam um ou dois casos flagrantes de demissão profissional a toda a classe de profissionais do ensino.

A fórmula usada para avaliar os professores assume um carácter pernicioso no aspecto em que não pretende premiar quem realmente se preocupa com a qualidade e o rigor das aprendizagens dos alunos pois, como generalizadamente se sabe, o bom professor é aquele que por norma também é mais exigente consigo e por arrasto com os resultados reais de quem está à sua frente … neste momento o professor mais exigente terá tudo contra si, pois será penalizado pelos baixos resultados dos seus alunos (se for o caso, claro) e pela avaliação dos pais, que como se sabe, hoje em dia vêem com maus olhos os professores que dão más notas aos seus educandos. Num momento em que o professor será penalizado pela percentagem de maus resultados atribuídos aos seus alunos, qual é a mensagem que passa? Parece-me óbvia para todos … premeia a qualidade? …não creio …

As escolas já começaram a ser dotadas de todo o equipamento mais que necessário a uma avaliação tão exigente, para melhorar as práticas e as aprendizagens?! O número de alunos/turma já reduziu para permitir melhorar as aprendizagens e finalmente, conseguir diversificar estratégias, chegar a todos, isto é, aos que têm diferentes ritmos de aprendizagem, sem penalizar também os bons alunos?! A carga horária de algumas disciplinas já aumentou, no sentido de dar real, efectiva e viva continuidade aos conteúdos leccionados, sobretudo no terceiro ciclo, altura em que os alunos têm menor autonomia e pedagogicamente deveriam ter maior presença e acompanhamento do professor?! O número de disciplinas, sobretudo no terceiro ciclo já diminuiu, para que os alunos não se percam, cheguem ao final do ano lectivo conhecendo todos os professores e os conselhos de turma não se tornem souks marroquinos em vez de reuniões de trabalho?! Esta e outras questões se poderiam colocar, pelos vistos sem resposta que se veja. A fórmula mágica não resultará sem os dados todos funcionarem no mesmo sentido … haja honestidade e assuma-se que a qualidade educativa não é o objectivo, mas sim a contenção de despesas …

Outro aspecto que foi surpresa foi a elevada percentagem de docentes que conseguiram o tal cargo de titularidade, os que serão pastores do restante rebanho, estranhamente elevada para um quadro educativo de elevado desleixo e ausência de profissionalismo … afinal em que ficamos, os professores são incompetentes ou não? Não será isto tudo mais uma desculpa semelhante àquela que orientou os EUA a invadir o Iraque alegando ser este detentor de armas de destruição massiva?!

Também creio que estar na pele de carrasco titular e passar a conviver com situações melindrosas por parte da classe de cordeiros alvo de avaliação também não será tarefa fácil , cordeiros esses que também já passaram por uma avaliação pedagógica e científica, estagiaram e foram bem sucedidos, deram o melhor possível durante anos, sem qualquer benefício adicional, premiados com “congelamentos” na transição de escalões e muitas vezes, tiveram as turmas mais indisciplinadas e os cargos mais penosos que, os agora titulares, não desempenharam por puro acomodamento profissional aos anos, quando supostamente seriam os mais experientes.

Será que quando se depreende uma degradação nas futuras relações humanas na Escola, a criação de um nocivo sentimento de competitividade e receio instalado, prejudicial às próprias práticas lectivas e pedagógicas por oposição ao que deve ser realmente uma Escola enquanto motor de educação, de transmissão de práticas e atitudes positivas de entreajuda, empatia, compreensão, respeito, espontaneidade, …não fará sentido apelar à objecção de consciência?! Fica a questão …

                                                                                                           Brama

sinto-me:

publicado por Brama às 13:39
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3 comentários:
De Maria a 10 de Agosto de 2007 às 14:34
Uma coisa que as pessoas desconhecem é a de que todos os profissionais podem ser objectores de consciência (e não apenas os médicos). Tendo em conta o estado do ensino e a forma como o Ministério funciona e trata os profissionais da educação (pilar básico em qualquer país), acho bem que haja muitos docentes objectores de consciência. Um pouco de corporativismo não faria mal nenhum (muito pelo contrário) a esta classe profissional.


De Zé L. a 12 de Agosto de 2007 às 06:39
Bravo! Excelente texto. Das melhores coisas que até hoje li sobre a situação actual do ensino. É isso mesmo.

Objectores de consciência no ensino? E que dá o primeiro passo? Anda tudo cheio de medo e sabemos que a classe docente é tudo menos muito unido.

É o medo, é o medo...


De Brama a 12 de Agosto de 2007 às 14:37
Pois o problema é esse ... essa atitude teria de ser conjunta, partir de uma proposta sindical ou coisa assim, mas uma acção conjunta ... a nível individual nunca vingará como é lógico ... se eu fosse titular tenho a certeza que não prejudicaria um colega meu, ainda mais agora em que iria ser usado como cobaia para alimentar um sistema tendencialmente neoliberal no qual sou um número e não uma pessoa ...


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