Domingo, 21 de Outubro de 2007

Sítio do Papagaio Azul

B: _ É como a estória do tal papagaio azul que fizeste nas aulas de artes decorativas, nunca o tiraste da entrada da cozinha, mesmo quando por várias vezes, algum de nós ia ficando sem um olho nos bicos de ferro do papagaio.

 

M: _ Não, comprei-o. Num latoeiro internacionalmente conhecido, com um estaminé montado do outro lado de Tavira, com uma parede cheia de recortes de jornais, com as fotografias dele e dos papagaios de lata, era um latoeiro.

Continua no mesmo sítio.

 

B: _???? No mesmo sítio?

 

M: _ Sim!...No mesmo sítio… na entrada da cozinha.

 

B: _ Como assim? Vocês já lá não vivem.

 

M: _ É lá o sítio dele. Na entrada da cozinha. Quando o vi na loja, comprei-o porque ia ficar bem na entrada da cozinha, por ser azul. (é um pormenor que faz toda a diferença!)

 

B: _ Não me vais dizer que compraste o papagaio para o deixar lá, nessa casa, não?!

 

M: _ Sim, deixei-o lá ficar, é lá o sítio dele.

 

B: _ Fantástico, foste gastar dinheiro no papagaio para o deixares pendurado na entrada da cozinha.

 

M: _ Foi por causa disso que o comprei, para o pendurar na porta da cozinha, por isso é lá o sítio dele. Eu venho-me embora, mas ele fica lá.

 

B: _ Se calhar esqueceste-te e tentas agora justificar de alguma forma.

 

M: _ Nã, nã, nada disso, comprei-o mesmo para o pôr naquele sítio, não fazia sentido tirá-lo para o levar para outro sítio.

 

B: _ Mas isso é muito estranho. Como deverás convir, o mais certo é que, quem para lá foi, já o tenha tirado daquele sítio pelo menos, até porque, como percebeste, não era muito prático desviarmo-nos cada vez que tínhamos de entrar na cozinha.

 

M: _ Eu acho que era natural desviarmo-nos, se o papagaio estava centrado a meio da entrada, ainda havia o lado direito e o lado esquerdo perfeitamente livres para poderem passar. Só tinham de se desviar.

 

B: _ E como vais saber que, quem para lá foi não o tirou do sítio que lhe tinhas atribuído?

 

M: _ Não vou, mas já não é responsabilidade minha.

 

B: _ Pois, não sei se isso faz muito sentido, afinal gastaste o dinheiro no papagaio porque supostamente gostavas dele e queria-lo para ti.

 

M: _ E gosto, mas não significa que tenha de andar com ele a passear de um lado para o outro. Comprei-o para o pôr ali e pu-lo, vim-me embora e ele ficou. A partir daí é livre.

 

B: _ Não deixa de ser uma teoria curiosa, mas o papagaio não tem vontade própria, é de ferro?! Ninguém te garante que ele continuará lá.

 

 M: _ Não, não me garante, mas deveria lá ficar, porque é lá o sítio dele.

 

                                                                        Brama e Mar

                                     

 

música: Habanera Opera - Bizet - Carmen

publicado por Brama às 14:49
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2 comentários:
De Graduated Fool a 21 de Outubro de 2007 às 16:15
Como deves calcular, adoro este texto. Adoro.
Só acho que a fotografia final, de um verdadeiro papagaio, não deveria constar. Prefiro a ideia de ficar a imaginar como será o papagaio de ferro.


De The Tales Maker a 22 de Outubro de 2007 às 01:00
Concordo contigo. Quando certas coisas que compramos, adquirimos, etc, o são para estarem num determinado sítio, devem lá permanecer. Todos nós temos os nossos "papagaios". Também tive coisas que adquiri e depois de coisas que se passaram, preferi as deixar os eu as sempre imaginei. São lá que fazem sentido, foi para lá, para ocupar aquele espaço que eu as arranjei. Agora se lá permanecem, se o dono do espaço ainda lá as tem, bom, é com ele, mas era naquele espaço que elas faziam sentido para mim.


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