Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Uma Questão de ... Cultura!

Como tema de conversa de jantar de Natal com um casal de amigos, abordámos a questão das diferentes formas de conceber e encarar a relação de convivência entre diferentes culturas, assunto que partiu exactamente de uma outra conversa sobre o Japão e a cultura japonesa (a que me referirei posteriormente, numa outra missiva). Neste sentido, existem três formas genéricas de perspectivar ou entender o contacto entre culturas:

- Etnocêntrica, que pressupõe o encerramento de cada concepção cultural em si mesma, remetendo-nos para uma perspectivação ou evidência mesmo de que existem culturas superiores e culturas inferiores e que deverá então, nesse caso, existir uma certa imposição das culturas entendidas ou ditas “superiores” face àquelas que, coitaditas, não têm pernas para andar.

No meu entender e penso que da generalidade das pessoas, esta teoria é que não terá mesmo pernas para andar. Entendo que existem sociedades mais desenvolvidas e mais respeitadoras da individualidade de cada um, mas talvez seja um pouco abusivo entendê-las como superiores, afinal todas as manifestações culturais de todas as diferentes realidades podem trazer-nos ensinamentos e acrescentar novas concepções do mundo e das relações humanas. Se esta teoria tiver algum sentido, então a cultura estado-unidense ocupará com alguma distância o último lugar do ranking, a mais inferior das inferiores obviamente;

- Relatividade Cultural, pressupõe que efectivamente existem diferentes culturas, não tendo consequentemente de existir sobreposições entre estas. Existem, são diferentes, deverão ser respeitadas na sua individualidade mas, não convém que se toquem para não gerar conflito. Ou melhor, dito de outra forma, coexistindo paredes meias, não deverão ser motor de conflito sendo que, independentemente da concordância ou não, deverá existir espaço para todos e para a liberdade de actuação de cada um, segundo os seus credos, a sua conduta, num total respeito pelas liberdades individuais. Em princípio agrada-me esta teoria, julgo que revela alguma maturidade, no entanto, levada à prática, a conversa já é outra e demonstra-nos ser algo utópica. Cada país tem, à luz de valores culturais e de todo um código de princípios vários, um conjunto de leis que se pressupõe deverem ser respeitadas por todos, conduzindo a  uma harmonia social real e isso choca naturalmente com a tal liberdade de manifestação cultural, uma vez que esta é relativa. Tendo por base uma perspectiva de relatividade cultural, não vejo razão para uma turista europeia por exemplo, ser obrigada a cobrir a cabeça ou tapar o corpo, quando em visita a alguns dos países islâmicos ou, conforme exemplo dado, não devemos intervir quando, um vizinho do andar de cima espanca a esposa todos os dias em casa por esta, à luz da sua cultura, ser inferior ao homem e dever-lhe submissão e respeito absoluto e merecer ser espancada quando incumpre as suas obrigações de esposa, mãe e dona de casa;

- Interculturalidade, pressupõe o entrecruzamento, uma certa miscigenação em que se aproveitam as vantagens de diferentes culturas para uma convivência harmónica entre todos. Num mundo em que é evidente que o Homem nunca se entenderá a si próprio nem aos demais, esta perspectiva soa-me a uma espécie de “Alice no país das maravilhas” e só consigo visualizá-la nos livros dos quadradinhos ou nas páginas da “Sentinela”. Não creio que o Homem alguma vez cresça suficientemente para atingir este patamar, desejável de resto. Assumo a minha confessa atracção por ambientes urbanos cosmopolitas, numa misturada étnica total, aparentemente funcional, mas certamente em infinitos momentos e situações, verdadeiramente disfuncional.

No que é que esta teoria difere da anterior! Esta é mais ambiciosa, implica uma análise pessoal e social mais elevada, ao ponto de eu entender muitas das minhas práticas culturais desadequadas ou desprovidas de sentido e adoptar outras mais coerentes ou melhor aplicáveis a determinados contextos. Implica eu conseguir aceitar e interiorizar algo absoluto novo e estranho por oposição ao que sempre foram as minhas práticas, quando percepciono que será mais correcto ou vantajoso. Este patamar de observância cultural e social só é atingido por uma pequeníssima percentagem da população, daí que a veja como absolutamente utópica.

                                                                                                                                       Brama

música: Lenny Kravitz; Anouk
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publicado por Brama às 14:51
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4 comentários:
De graduated Fool a 16 de Dezembro de 2007 às 22:37
Ou seja, nenhuma das vertentes é propriamente boa para ti, parece-me.
Nenhuma é perfeita, isso não, claro.
Relativamente ao primeiro caso, será mesmo que os EUA viriam no fim? Não acho. Há culturas que, para mim, são mais, diria, "mediocres" e desrespeitadoras dos básicos direitos humanos. Mas entendo o que queres dizer porque a essas ditas falta-lhes a informação que falta aos americanos. Desse ponto de vista concordo.
Adorei esta análise. Muito bem conseguida. Dei esta matéria em Sociologia no 10º ou 11º ano. Aqui está muito bem resumida.


De Graduated Fool a 16 de Dezembro de 2007 às 22:39
Não percebi isto:

"música: Lenny Kravitz; Anouk"


De hydrargirum a 17 de Dezembro de 2007 às 00:28
Tem graça que eu ia começar pelo mesmo:

música: Lenny Kravitz; Anouk

Eu adorei esta análise!....De ponta a ponta....!!!!
Eu nunca dei isto na escola....
Mas se calhar era pors er da área A....

Mas isto afinal é matéria escolar ou é opinião tua?


De Brama a 17 de Dezembro de 2007 às 01:22
Graduated Fool e Hydra:

Tenham calma ... não é nenhuma música juntando os dois ... enquanto escrevi o post ouvi um álbum do Lenny e outro da Anouk ... foi só isso. Daí: Lenny; Anouk

Hydra:

Eu também não me lembro de ter dado esta matéria, embora tal como o Graduated tivesse tido Sociologia, neste caso no décimo segundo ano. Estas perspectivas derivaram da nossa conversa, eu e o tal casal de amigos meus.


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