Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Atrás da Cortina Verde

Hoje chegara mais cedo daquele escritório que já não suportava mais. Estava farta daquele ambiente artificial, de toda a etiqueta no trato e na indumentária, da quantidade de documentos de extrema responsabilidade, a que tinha de dar resposta e despacho diariamente e das víboras das suas coleguinhas que todos os dias a cumprimentavam com os seus sorrisinhos cínicos, quando ela sabia que a invejavam por todos os motivos. Invejavam a sua beleza, porque tinha consciência dos seus evidentes atributos físicos, invejavam o lugar de destaque que ocupava na empresa, certamente supondo que o teria conseguido à custa de dormir com o director. Esqueciam-se no entanto que, nos últimos cinco anos, tinha sido ela a principal responsável pelo sucesso da empresa e pela sua elevada taxa de produtividade. Sem ela, a empresa não teria sobrevivido face a tanta concorrência. Subestimariam certamente as suas capacidades, cegas que ficavam quando todas as manhãs a viam entrar bombasticamente no departamento de Gestão. Odiava os seus cumprimentos matinais exagerados, quando percebia que a estudavam invejosas, da ponta dos seus fulgurantes cabelos negros até ao limite dos saltos de agulha. Eram umas cabras dumas cínicas e porém, não se tocavam quando lhes devolvia o cumprimento secamente e sem mais delongas.

Tinha entrado no seu jardim, já há muito tempo repleto de ervas daninhas ... perdera a paciência para o cuidar impreterivelmente todos os fins-de-semana e aparar toda aquela relva que o circundava. Apenas continuava a ter cuidado em cortar as pontas da hera que se esgueirava pelo portal acima. Entrara em casa, subira as escadas, entrara no seu quarto, descalçara os fatídicos saltos de agulha e esticara-se um pouco na cama. Inspirou profundamente, esticou os pés doridos e rapidamente se perdeu em pensamentos, fazendo um balanço da sua vida. Percebeu como estava a viver uma vida errada, aquela não era a sua vida, a vida por que tinha ambicionado desde pequena. Desde que se lembra, que sonhara em ser designer de interiores ou jornalista, porém e apesar de ser uma excelente profissional naquilo que fazia, não se sentia realizada atrás de uma secretária a assinar documentos, preencher formulários e tabelas, preparar orçamentos, ... todo um trabalho estéril, estúpido e repetitivo, num ambiente ainda mais estupidificante, artificial, desinteressante e pleno de relações de interesse. Tinha-se imaginado ao lado de um homem culto, instruído e charmoso e com dois ou três filhos lindos que correriam para ela, para a abraçar e beijar quando entrasse em casa, ao fim de um cansativo dia de trabalho. No entanto, só encontrara homens estúpidos e ignorantes que a admiravam mais pelos seus fogosos e voluptuosos seios e pelas suas salivantes e firmes nádegas de marfim, do que pela sua inteligência e, quando entrava em casa, depois de um dia de trabalho, apenas era abraçada pelo esmagador silêncio e pelo peso da solidão. De que lhe valera tanta beleza, que ainda permanecia quase plena apesar dos seus 42 anos, se só atraía homens brutos e mal casados sedentos por experimentar aquilo que improvavelmente teriam em casa e a suas cínicas coleguinhas que, com 25 e 30 anos, só conseguiriam enfiar as suas calças justas e apertadas, no pescoço ... se elas sequer supusessem como ela se sentia uma mulher frustrada e incompleta, talvez a começassem a ver com outros olhos. Mas não, era melhor assim, continuariam a vê-la entrar no escritório para cumprir as suas funções sem mácula e sempre de cabeça erguida ... claro que as suas coleguinhas não poderiam jamais percepcionar a sua tristeza, seria um regozijo para elas. Deixariam de sentir inveja para nutrir alguma pena e ela era demasiado orgulhosa para lhes dar esse gostinho e no final de contas, só se sente inveja de quem se admira de alguma forma. Apesar de as odiar de morte, a sua inveja ainda era o alimento que a mantinha de pé um dia depois do outro e ela precisava desse alimento, quase mais do que a própria vida. Perdida nestes pensamentos, apercebeu-se de um som de crianças rindo e gritando, vindo do exterior. Levantou-se de sobressalto e aproximou-se da janela do quarto. Desviou discretamente a cortina verde e rapidamente se apercebeu que se tratava dos filhos dos vizinhos da casa ao lado. Brincavam no jardim alegremente, tentando molhar-se um ao outro com a mangueira e rindo de satisfação, enquanto o pai, aquele homem corpulento e que a cumprimentava todos os dias educadamente na sua voz calma e grave, podava as trepadeiras e um salgueiro-chorão frondoso, que nos dias mais quentes, refrescava a sua própria casa, pela sombra que lhe proporcionava. Tinha as mangas da camisa arregaçadas, deixando transparecer dois braços tonificados e vigorosos ao mesmo tempo que cortava os ramos com firmeza e a segurança de um homem com convicções próprias. Imaginou aquelas duas mãos grandes e possantes envolvê-la e afagar-lhe os seios e isso deixou-a um pouco excitada e algo ansiosa. Sempre fora ela a controlar os homens, a deixá-los submissos como cordeiros; porém, este perturbava-a completamente, sensação que, para si, era absolutamente nova e algo desconfortável. Desde o primeiro momento em que aquele casal se mudara para ali, que ela se apercebera daquele homem, daquele monumento à masculinidade, exactamente o seu tipo, fisicamente era com toda a certeza e aparentava sê-lo também na personalidade. Mas claro, apesar da proximidade, tinha de ser casado e com filhos e, de homens casados e mal-casados que só lhe queriam saltar em cima, estava ela farta, eram todos iguais. Talvez este não fosse sequer nada do que ela imaginava, poderia ser apenas o seu desejo a nublar-lhe a mente e a racionalidade, talvez fosse só ela e a sua mente a especularem algo absolutamente ilógico ... além do mais, ela é que dominava os homens e estava fora de questão o contrário. Mas para que estaria ela para ali com tanta dedução, se jamais se envolveria com tal pessoa, no fundo não era mais que a voz do seu desejo reprimido a falar mais alto, mas não o desejo simples de ter aquele homem. O que ela desejava mesmo era ter aquela vida, a vida da esposa daquele homem. Quando falou com eles pela primeira vez, apercebeu-se da naturalidade e da simplicidade com que a cumprimentaram, foram e eram sempre muito educados e atenciosos. Reparou também, pela primeira vez, que um homem a cumprimentara como pessoa e não como um naco de carne pronto para ser devorado, sem aquele brilho de caçador e cobridor nos olhos. Isso prendeu-lhe ainda mais a atenção e a curiosidade por ele. Mas ela jamais faria algo que comprometesse aquela agradável relação de vizinhança, diplomática, um pouco formal, mas tão gratificante. A esposa, uma professora de História e Geografia de Portugal do 2ºciclo, não tinha o seu ar fulgurante de mulher fatal, mas era muito bela, tinha um ar cândido e desprotegido. Teria certamente uma idade semelhante à sua, mas com a sua pele de porcelana, de um branco imaculado, com aquelas engraçadas sardas no nariz e um sorriso puro e infantil, parecia uma menininha, daquelas pessoas que parece que nunca envelhecem e que não têm idade. Desde o primeiro momento se mostrou disponível para consigo. Tinha-lhe dito que sempre que precisasse de legumes ou fruta ou outra coisa qualquer, que batesse à sua porta e seria sempre bem recebida. Mas na realidade, se tivesse de pedir algo, seria com toda a certeza o marido ... e isso nunca iria acontecer.

A partir daquele dia, do dia em que percepcionou aqueles braços viris, começou a observá-los a todos com maior frequência. Chegava do trabalho, subia ao quarto e colocava-se atrás da sua cortina verde. Tornou-se quase dependente daquela espécie de voyerismo, algo que ela reprovaria  com toda a certeza nos outros. Viveu a vida daquela família e daquela esposa como se fosse a sua própria vida, como quem assiste a uma novela televisiva e vive toda aquela representação com maior intensidade que os próprios actores. Observava as crianças a brincar no jardim e apetecia-lhe correr para elas e apertá-las maternalmente junto ao  seu peito. Observava o seu vizinho que chegava de pasta, fato e gravata todos os dias, entrava em casa sempre por volta das seis horas da tarde ... passados 15 minutos já ele estava de fato de treino no jardim a participar nas brincadeiras dos filhos ou a tratar de algo, carregando ou martelando umas tábuas, cuidando do jardim, regando ou aparando a relva. Mais tarde chegava a esposa, carregada de duas pastas, uma onde traria o portátil toshiba e outra provavelmente cheia de documentos vários, actas, fichas, tabelas, relatórios, sempre carregada, mas sempre sorridente. Por vezes, sobretudo aos fins-de-semana, observava-a no jardim enquanto os filhos brincavam de modo efusivo ... nessas alturas parecia ausente, por vezes notava-a apática, olhava para os filhos de braços cruzados e algo inexpressiva.

Atrás da cortina verde, observou mês após mês aquela família. O pai sempre bem-disposto, as crianças muito enérgicas e com os seus risos estridentes, a mãe bem-disposta e com um sorriso genuíno por vezes, outras aparentemente ausente. Por vezes não parecia feliz e notara agora que raramente a vira abraçar os filhos. De facto, aquela afável senhora, aquela simpática e amorosa senhora não era muito dada a agarrar os filhos, a participar nas suas brincadeiras e muito menos a acarinhar o marido. Com o tempo dera-se conta que aquela senhora, aquela mãe e esposa era muito mais agradável consigo mesma do que com a sua própria família. Por várias vezes a convidara para tomar café, convites a que se furtava com desculpas várias, vinha cansada do trabalho, tinha dor de cabeça, teria de sair para um jantar, etc, etc ... no fundo, sentia-se comprometida em estar na sua companhia ou em estabelecer maior proximidade, quando na verdade invejava a sua vida e pior, andava a vigiá-la há muito tempo. Como encarariam eles, se um dia resolvesse dizer-lhes que os observava atrás da cortina verde do seu quarto, há tanto tempo? Que pensariam de si?

Um dia de manhã preparava-se para sair de casa quando se apercebe que tem uma carta no chão junto à porta de entrada ... do seu conteúdo, por respeito e como solicitado pelo remetente, nunca chegou a dar conhecimento. A sua vizinha, aquela simpática senhora sem idade, tinha-se despedido desta vida porque na verdade, aquela nunca tinha sido a sua própria vida, a vida que deveria ter sido a sua.

 

Brama

 


publicado por Brama às 23:09
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Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

O Palhaço

Teresinha Violácea de Vasconcelos, é uma menina laroca, muito viva e airosa, de gelatinosos e densos olhos de esmeralda e longos caracóis dourados. Tem 7 anos e vende energia. Na escola é aluna exemplar, tem um raciocínio vivo e já apanhou toda a explicação da professora quando os seus colegas ainda estão a "apanhar bonés". É exímia em todas as matérias e assimila ao segundo, tudo o que lhe ensinam. Mas, apesar de tudo, Teresinha, tratada por menina V.V. pelos pais, é muito caprichosa, retém tudinho o que lhe dizem, para o bem e para o mal e tem uma extrema dificuldade em aceitar um não ... não fosse ela filha única habituada a todas as mordomias por parte dos papás. Sua mãe, Ursulina Tomásia Júlia Virtuosa de Vasconcelos, é investigadora num laboratório de Química e acérrima defensora dos direitos dos animais, pertencendo a uma Associação de defesa e salvaguarda do Panda gigante e participando frequentemente como activista em acções contra o uso de peles naturais e contra a utilização do marfim em peças decorativas. Seu pai, Simplício Iguanodonte de Vasconcelos, é um reconhecido biólogo marinho que se dedica, nos seus tempos livres, à criação de cães da raça Golden Retriever, estudando ainda o comportamento dos papa-formigas em ambiente artificial. Neste momento tem apenas uma cadela que brevemente dará à luz 4 lindos cãezinhos, mais algumas semanitas. Ambos têm, apesar das suas profissões, grandes heranças familiares. Teresinha adora que a mãe lhe vista vestidinhos amarelos (fica histérica quando a mamã lhe veste um) e adora que lhe façam tranças com laços verdes. Tem a maior colecção de Barbies das redondezas, causando inveja a todas as amiguinhas, quando estas vão lá a casa. A sua mãe até lhe criou uma pequenina divisão, de 50m2,  junto ao quarto só para as suas bonecas, peluches, jogos e todas as demais exigências de uma criança socialmente privilegiada. Recentemente a mãe quisera-lhe oferecer uma nova colecção de bonecas, as "Supra-sumo", ideia imediatamente declinada por Teresinha que entende estas serem muito roliças e com os pés chatos, o que não tem classe nenhuma e resultaria pessimamente no seu quarto. Teresinha revela um espírito crítico e um sentido estético ímpares para alguém da sua idade, deixando com frequência os paizinhos boquiabertos com as conjecturas que engendra e os elaborados discursos que apresenta. Os paizinhos sentem-se orgulhosos por terem uma princesa tão inteligente e expedita.

O circo chegou à cidade. O papá Simplício achou por bem premiar a sua menina V.V. com uma ida ao circo. Seria nesse fim-de-semana. Teresinha ficou histérica com a ideia e lá foram. Teresinha captou todos os momentos do espectáculo, parecia hipnotizada. Os papás não gostaram particularmente dos números com os animais e, sobretudo a mamã, teve uma discussão feia com os organizadores, por causa dos maus tratos que estes certamente inflingiam aos felinos. Ameaçou levar o caso a tribunal e sujeitá-los a pesadas sanções e chamou-os de assassinos e violadores dos direitos dos animais. Teresinha fez uma birra porque queria levar os palhaços para casa. O papá explicou à sua princesa que era impossível levar aqueles palhaços para casa porque eram pessoas e não bonecos. Teresinha não se deixou convencer e, em desespero de causa, avançou com a hipótese de os manter a recibos verdes em casa, podendo estes tratar dos 600m2 de jardim da sua casa, assim como da piscina e do court de ténis. O papá retorquiu que já tinham um jardineiro para esse fim e Teresinha ficou fula com a resposta, amuou, bufou, cerrou os dentes e ameaçou com a linha telefónica de defesa da criança em risco. Entretanto a mamã já estava a tirar os dados dos funcionários do circo para mover uma acção contra este, quando o papá Simplício a chamou para irem dali o mais depressa possível. Teresinha estava louca de nervos e a sua veia jugular formava uma bola inflamada de raiva. O papá, não querendo ver a sua menina triste e aborrecida, prometeu-lhe então comprar um magnífico palhaço pelo aniversário, que seria dali a duas semanas. Teresinha ficou radiante. A mamã Ursulina não ouvira, ia muito concentrada a procurar o contacto do seu advogado, para procurar a melhor solução e mover uma acção jurídica contra aquela gente. Teresinha comportou-se muito bem nos dias seguintes, esperando que o papá lhe oferecesse o mais fantástico palhaço já concebido e imaginado. Não voltou a relembrá-lo da oferta que lhe prometera, pois sabia que o seu papá odiava que o relembrassem sistematicamente de algo que já prometera antecipadamente. Chegaria o dia e obviamente, ela teria o palhaço mais impressionante e belo, alguma vez visto, de sempre e para sempre. Teresinha estava tão excitada que mal conseguia dormir durante a noite. A sua magnífica colecção de Barbies parecia-lhe agora mais trivial que nunca ... um conjunto de bonecas cor-de-rosa meio aparvalhadas, todas com um sorrisinho artificial, umas ridículas de umas bonecas com arzinho de loiras-burras. Ela ao menos era loira, mas hiper-inteligente. Os dias passaram e Teresinha estava cada vez mais desnorteada ... o seu palhaço estaria a caminho, em breve ela poderia apertar-lhe o narizinho vermelho. Como seria o seu palhaço? ... preferiu não alimentar mais expectativas. Fosse como fosse, seria naturalmente o melhor dos melhores, o mais belo dos belos, o mais lindo dos lindos, o soberbo dos soberbos e ... as suas amiguinhas ficariam com taaanta inveeeeja. Ai como Teresinha ficava excitada e fora de si, só de imaginar os olhos invejosos das suas amiguinhas, quando esta lhes apresentasse o seu palhaço .... isso ainda lhe dava mais prazer, não só ter o palhaço, como imaginar a cara de suas amiguinhas quando o apresentasse. Seria um momento inesquecível ... elas perceberiam a partir de então quem manda afinal e a quem têm de respeitar. Elas já a respeitavam e temiam ... mas a partir do momento em que tivesse o seu palhaço ... a partir daí a conversa seria outra, oh se seria. Bem, aproximou-se o dia de aniversário mas ... algo aconteceu entretanto que trocou as voltas a Teresinha. Os papás não poderiam passar consigo o dia de aniversário. Para Teresinha foi um escândalo aquilo que se estava a passar, não poderia ser verdade ... era a primeira vez que os papás não iriam estar consigo no seu dia de aniversário. O que se passava afinal? ... a mamã precisava ir com a máxima urgência ao Alaska e ao Canadá juntamente com um grupo de activistas, fazer uma barreira de protecção das focas-bebé, contra os ataques inqualificáveis dos caçadores furtivos. Essa era agora a prioridade máxima da Sra. Ursulina Tomásia ... ela estava cega por dar uns bons pares de chapadas naqueles assassinos e o marido, o Sr. Simplício Iguanodonte teria de ir ajudá-la, como é lógico. Ele é um homem bem mais calmo e não se imaginava de todo, a correr os caçadores à chapada, mas estava fora de questão não acompanhar a esposa, seria uma decepção para esta. Lá foram ... e para desgraça de Teresinha, na véspera do seu aniversário. Esta ficaria com a avó, a D. Girondina Virtuosa, senhora de grande virtuosismo. Teresinha estava louca de ódio e raiva e para agravar  tudo, ficaria com a avó que ela considerava básica e de pensamento lento. Não tinha paciência para a acompanhar nas brincadeiras e não entendia o seu discurso. Teresinha espumava e arrepelava-se toda e nem sequer ponderou que, quando acordasse no dia seguinte, não estivesse o super palhaço à sua espera num mega-embrulho de aniversário. A verdade é que no dia seguinte ... o palhaço não estava em casa. Teresinha sentiu um raio de ódio atravessar-lhe o corpo todo e quem sofreu naqueles dias foi a avó materna. Teresinha massacrou a avó até mais não e os papás só chegariam dali a um mês. Entretanto nasceram os lindos cãezinhos Golden Retriever e não eram 4, eram 5 lindos e gordinhos cãezinhos de um tom amarelo clarinho tão lindo. A avó estava radiante com os cãezinhos e apressou-se a ajudar a mãe cadela em todos os preparos. Teresinha odiava tudo à sua volta, tinha o diabo no frágil corpito. Como era possível o seu pai ter ousado esquecer-se do seu palhaço, do palhaço que lhe prometera !!! Ele jamais tinha falhado uma promessa ... jamais. Porém agora tinha-o feito categoricamente, sem o menor pudor. Teresinha passou-se de vez, assaltada por um ódio que, ainda hoje não consegue explicar, pegou nos 5 ternurentos cãezinhos e afogou-os num alguidar de água. A mãe cadela estava desconsolada, chamava pelos filhotes em todo o lado ... a avó chorava compulsivamente e não compreendia a atitude de sua neta. Faltavam apenas dois dias para os papás chegarem e Teresinha tinha satanás no corpo. Destruíu o jardim de casa, empurrou a avó para a piscina (só resistiu com a ajuda do jardineiro que a puxou para fora), colocou as Barbies todas na casota da cadela Golden Retriever, queimou os cortinados Versace da mamã e pior que tudo, meteu no lixo a colecção de moedas e selos antigos do papá. A avó Girondina não sabia que fazer para acalmar Teresinha. Teresinha estava absolutamente possessa e só acalmou quando viu os pais voltar a casa. Estes entraram com o mais belo palhaço que alguma pudera conceber, de tal forma belo que só a sua luminosidade inundara toda a entrada da casa. Teresinha não conseguiu emitir uma palavra e ficou prostrada de joelhos e de boca aberta perante tanta e tão extraordinária beleza. Os olhos dos pais encheram-se de lágrimas. A avó ... essa estava a soro no hospital mais próximo.

 

Brama

 


publicado por Brama às 19:34
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O Poder da Palavra

Abriu os olhos com alguma dificuldade e foi acordando a pouco e pouco de um estranho sono, uma espécie de sono quase doentio. Sentiu uma fortíssima dor de cabeça e ... ao tentar mover-se, percebeu que não lhe era possível. Insistiu em erguer a cabeça, mas viu-se impossibilitado do mais pequeno movimento. Só podia ver o tecto, um tecto que não lhe era familiar, em madeira tosca e com uns pregos algo enferrujados. Posteriormente tentou mover as mãos mas, sentiu uma dor lancinante ao tentar mexer-se, uma espécie de lâmina que insistia contra um dos braços ... um dos braços?! ... de facto, sentia apenas um dos braços. E o outro? ... não sentiu um dos membros superiores ... provavelmente estaria adormecido devido àquele sono profundo e a pouco e pouco viria a si. Tentou olhar para o lado direito para ver o seu membro, mas sentiu uma dor tão forte no crânio que não voltou a tentar. Algo lhe estava a esmagar o crânio e o apertava de modo indelével, causando-lhe uma dor insuportável. Não compreendeu o que se estaria a passar, nem conseguiu situar-se no tempo e no espaço. Onde estaria? ... que horas seriam? ... seria tarde, noite?! ... e de que dia? ... havia perdido completamente a noção do tempo e do espaço e isso deixou-o apavorado. Não podendo mover-se daquele local sentiu-se indefeso e à mercê de algo que não compreendia. Agora tentava mover os membros inferiores e ... mais uma vez, percebeu que não conseguia. Entrou em pânico e tentou mover os pés e as pernas bruscamente. Ao fazê-lo deu um grito surdo de dor ... uma dor indescritível. Sentira uma lâmina metálica cravar-se mais intensamente no calcanhar. Foi aí que entendeu que algo verdadeiramente estranho e de errado se estaria a passar. Apesar de não conseguir mover a cabeça e ver algo mais, além do tecto, apercebeu-se de que  não poderia forçar as pernas a movimentar-se um só milímetro. Tinha as pernas amarradas com algo que não conseguiu definir, mas assentes em lâminas que as cortavam em vários pontos. Entrou em pânico e começou a transpirar. Sentiu-se inerte, preso àquela mesa, cama, marquesa ... qualquer coisa, ele não sabia exactamente o quê. Molhou nervosamente os lábios e foi aí que se apercebeu de um gosto estranho. Tinha a boca seca e a língua áspera, sentiu um gosto a ferrugem nos lábios. Seria sangue?! ... sim, era sangue. Mas sangue?! ... porquê? ... que lhe teria acontecido? ... que se estaria a passar? ... talvez tivesse tido um acidente de viação ... é isso, tinha sofrido um aparatoso acidente e encontrava-se num hospital. Por segundos acalmou mas depois pensou que não faria qualquer sentido. Um hospital não tinha aquele aspecto sombrio e os hospitais não têm tectos em madeira. Não, hospital não era. E sentiu lâminas nas pernas e nos pés. Claro que não estava num hospital, que disparate. Ficou naquela posição algum tempo e já estava a sentir-se gelado, sentiu o corpo desnudo completamente frio e isso desconfortou-o. Também sentiu sede, muita sede, voltou a molhar os lábios mas apenas sentia aquele sabor a sangue, meio acre, meio adocicado. Apoderou-se de si uma inquietação total, uma raiva e irritação descontroladas, uma angústia desmedida, uma mistura de sensações díspares. Queria respostas, queria saber o que se estava a passar consigo. A pouco e pouco sentiu uma luz ténue invadir aquele espaço, uma luz que a pouco e pouco ia dando alguma claridade a toda a área circundante. Perscrutou alguma esperança. Naquela posição, só conseguia mesmo ver o tecto, um tecto castanho, em madeira escurecida e com alguma humidade, que agora ia ganhando a pouco e pouco definição. Já conseguia visualizar os veios da madeira e ... o que seria aquilo?! ... parecia algo inscrito num tom avermelhado e com uns borrões. Piscou os olhos e tentou visualizar com mais pormenor, à medida que todo o espaço se invadia de luz. Depois conseguiu perceber o que lá estava. Finalmente conseguiu ler:

" Eu avisei-te que perdoaria tudo menos a traição. ADEUS!"

Brama

 


publicado por Brama às 15:28
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Grandes Amigos

Reencontraram-se uma vez mais naquele aeroporto. Era assim desde há já alguns anos. Desta vez não se viam há mais de seis meses. Estavam nervosos, porém ansiosos. Deram um abraço formal, mas os olhos luminosos de ambos não esconderam as saudades que tinham. Saíram para fora daquele espaço frenético de encontros e desencontros. Cá fora, sentiu o calor sufocante de um território tão diferente das suas nórdicas latitudes. Caminharam juntos, lado a lado, em direcção a casa, não muito longe daquele ponto de ligações internacionais. Falaram do emprego, da família, do estado do tempo ... as conversas triviais de sempre. Evitavam olhar-se nos olhos. Interrompeu a amena conversa ... no caminho apercebeu-se que, numa das ruelas, havia um grande ajuntamento de homens, mulheres e crianças que circundavam e conspurcavam três jovens mulheres desnudas. Aproximando-se mais um pouco observou que as três raparigas estavam atadas e presas nos braços e nos pés e entre si, tinham as cabeças baixas cobertas pelo emaranhado dos cabelos negros e exibiam sinais evidentes de maus tratos nos frágeis corpos. Teve dificuldade em visualizá-las porque a população local acotovelava-se, sedenta de cuspir impropérios e atirar-lhes pedras. Possivelmente teriam cometido adultério ... nunca chegou a saber. Olhou em redor e no meio da confusão ali gerada, constatou que um grupo de miúdos que não teriam mais de oito ou nove anos, riam e brincavam com armas de verdade e simulavam atirar uns contra os outros, perante a indiferença dos adultos que ali se encontravam. Sentiu um nó na garganta e uma dor aguda no peito. Apressaram-se em sair dali e afastaram-se. Caminharam mais um pouco e já estariam perto. Meteram a chave à porta e fechando-a atrás de si, abraçaram-se transpirados pelo acelerado estado de ansiedade em que se encontravam  e descontroladamente, mergulharam os lábios um no outro. Não aguentariam muito mais tempo sem aquele momento e ... ali, deram largas à sua "amizade", o tipo de amizade que a lei local não aceita nem compreende. Ali no escuro ... puderam dar luz àquilo que eram e que sentiam.

Brama

 


publicado por Brama às 23:10
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Mais um dia

Há muito que se sentia morto.

Na verdade só os batimentos cardíacos o mantinham preso à vida de alguma forma.

Mas não queria continuar assim, queria mesmo deixar de sentir de vez. De uma vez por todas queria pôr um ponto final a tanto sofrimento. Estava decidido a fazê-lo naquele mesmo dia e isso deixou-o algo tranquilo. A ideia de imaginar-se noutro local qualquer que não aquele apaziguou-o.De certa forma estava ansioso por fazê-lo, só não sabia como. Temia o sofrimento físico, temia agonizar sem conseguir ir até ao fim. Mas agora já tinha decidido que o faria. Como voltar atrás?! ... isso é para os fracos. Achava-se suficientemente homem para não voltar atrás. Não, não hesitaria sequer. Era naquele dia ... afinal que mais lhe traria esta mísera existência? Os dias eram de facto todos iguais. Os homens haviam-no desiludido ... nada lhe restava a não ser desaparecer e deixar de pensar. Já não se recordava de sorrir há muito tempo. Quando teria sido a última vez?... depois lembrou-se que tinha sido no dia do nascimento do seu único filho ... tinham passado vinte e dois anos. Sim ... foi esse o último dia em que se lembra de ter sorrido. Não voltaria a ver o seu filho desde esse momento e mais tarde, soube que este teria falecido numa brincadeira de adolescentes com motorizadas, numa quinta. Afastou esse pensamento e concentrou-se na sua decisão. Ergueu-se da cama, bebeu avidamente um copo de água que tinha mesmo a seu lado, sobre uma mesinha de cabeceira e fumou um longo cigarro demoradamente. Sentia os membros tensos e sustentava um olhar vítreo. Foi à cozinha, pegou numa faca com uma boa lâmina e dirigiu-se para a casa-de-banho. Ao aproximar-se do espelho sobre a bancada, observou fixamente o seu rosto. Não gostava dele, tinha o olhar vazio, os lábios ressequidos e umas longas rugas marcadas, desde os cantos dos olhos. Não queria mais aquele rosto, para dizer a verdade, a sua expressão inexpressiva repugnava-o. Esticou um braço e com a ponta da lâmina começou a desenhar junto ao pulso e depois, pelo braço acima, uns traços e uns cortes. Não lhe doía, até gostou de sentir o sangue quente inundar-lhe a pele para posteriormente, pingar na bancada. Não iria demorar muito, só quis saber primeiro o que sentia, ao fazer uns pequenos cortes nos braços. Em breve trespassaria o peito junto ao coração com aquela lâmina grossa e afiada. Talvez lhe doesse mas tentaria ser rápido. Tocou a campainha. Sobressaltou-se e largou a faca sobre a pia. Aproximou-se da porta nervosamente, apercebeu-se de que na entrada do prédio estavam duas pessoas. Ao perguntar quem era, percebeu então que dois amigos seus, que já não via há alguns meses e que viviam do outro lado da cidade, lhe tinham vindo fazer uma supresa, convivando-o para jantar. Estavam visivelmente bem-dispostos, notava-se nas suas vozes estridentes. Respondeu de modo abafado que esperassem uns minutinhos que já desceria. Limpou nervosamente as manchas de sangue do braço, vestiu outra camisa e um casaco por cima, pôs um pouco de perfume para disfarçar o cheiro acre do sangue e desceu a escadaria.

 

Brama

 

sinto-me: negro

publicado por Brama às 20:43
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Trilogia Suja de Havana

De Pedro Juán Gutiérrez, Trilogia Suja de Havana é o espelho do desesperada e desesperante realidade da sociedade cubana. Obra de certa forma autobiográfica, combina humoristicamente um imbrincado e condimentado conjunto de ingredientes, com especial destaque para o sexo, o erotismo, o desencanto, a fome, a incerteza constante, tudo muito bem regado de litros e litros de rum. A par de tantos têmperos, temos também algumas reflexões interessante sobre o mundo dos homens e o universo das suas relações.

Brama

 

 

 

" (...) Se uma pessoa tem ideias próprias - ainda que sejam poucas as ideias próprias - tem que perceber que passa a vida a encontrar má cara, gente que há-de estar contra nós, a rebaixar-nos, a 'fazer-nos compreender' que uma pessoa não diz nada, ou que temos de enganar aquele tipo porque é doido, ou maricas, ou um verme, ou vadio, outro porque deve ser punheteiro e voyeur, outro porque é ladrão, outro santeiro, espírita, drogado, outra porque é galdéria, indecente, puta, ordinária, mal educada. Essa gente reduz o mundo a algumas pessoas híbridas, monótonas, aborrecidas e 'perfeitas'. E querem assim converter-nos em marginais e em merda. Enfiam-nos a cabeça na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os outros. E dizem-nos: 

' É assim a vida, meu senhor, um processo de selecção e rejeição. Somos nós os detentores da verdade. O resto que se lixe.' E se passarem trinta e cinco anos a martelar-nos isso no cérebro, uma pessoa depois de ficar isolada acha-se a maior e fica mais pobre porque perde uma coisa bonita da vida que é gozar a diversidade, aceitar que nem todos somos iguais e que se assim fosse isso seria uma grande chatice. (...)" 

 

GUTIÉRREZ, Pedro Juán; Trilogia Suja de Havana ; Publicações Dom Quixote; pp.16 e 17.

 


publicado por Brama às 22:28
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Chapeuzinho Vermelho na visão de Millôr Fernandes

Há uns meses recebi este texto por mail, texto de Millôr Fernandes, que achei delicioso.

 

Era uma vez (admitindo-se aqui o tempo como uma realidade palpável, estranho, portanto, à fantasia da história) uma menina, linda e um pouco tola, que se chamava Chapeuzinho Vermelho (esses nomes que se usam em substituição do nome próprio chamam-se alcunha ou vulgo). Chapeuzinho Vermelho costumava passear no bosque, colhendo Sinantias, monstruosidade botânica que consiste na soldadura anomala de duas flores vizinhas pelos invólucros ou pelos pecíolos, Mucambés ou Muçambas, planta medicinal da família das Caparidáceas, e brincando aqui e ali com uma Jurueba, da família dos Psitacídeos, que vivem em regiões justafluviais, ou seja, à margem dos rios. Chapeuzinho Vermelho andava pois, na floresta quando, lhe aparece um Lobo, animal selvagem carnívoro do género cão e ... (Um parêntesis para os nossos pequenos leitores - o Lobo era, presumivelmente, uma figura inexistente criada pelo cérebro superexcitado de Chapeuzinho Vermelho. Tendo de andar na floresta sozinha, natural seria que, volta e meia, sentindo-se indefesa, tivesse alucinações semelhantes).

Chapeuzinho Vermelho foi detida pelo lobo que lhe disse: (Outro parêntesis: os animais jamais falaram. Fica explicado aqui que isso é um recurso de fantasia do autor e que Lobo encarna os sentimentos cruéis do Homem. Esse princípio animista é ancestralíssimo e está em todo o folclore universal).

Disse o Lobo: "Onde vais, linda menina?". Respondeu Chapeuzinho Vermelho: "Vou levar estes doces à minha avozinha que está doente. Atravessarei dunas, montes, cabos, istmos e outros acidentes geográficos e deverei chegar lá às treze e trinta e cinco, ou seja, à uma hora e trinta e cinco minutos da tarde.".

Ouvindo isso o Lobo saíu correndo, estimulado por desejos reprimidos ( Freud: "Psychopathology of Everyday Life", The Modern Library Inc., N.Y.).

Chegando a casa da avozinha,  ele engoliu-a de uma vez - o que, segundo o conceito materialista de Marx indica uma intenção crítica do autor, estando oculta aí a ideia do capitalismo devorando o proletariado - e ficou esperando deitado na cama, fantasiando com a roupa da avó.

Passaram- se quinze minutos (diagrama explicando o funcionamento do relógio e seu processo evolutivo através da História). Chapeuzinho Vermelho chegou e não percebeu que o Lobo não era a sua Avó, porque sofria de astigmatismo convergente, que é uma perturbação visual oriunda da curvatura da córnea. Nem percebeu que a voz não era a da Avó, porque sofria de otite, inflamação do ouvido, nem reconheceu nas suas palavras, palavras cheias de má-fé masculina, porque afinal, eis o que ela era mesmo: esquizofrénica, débil mental e paranóica, pequenas doenças que dão no cérebro, parte súpero-anterior do encéfalo. (A tentativa muito comum da mulher ignorar a transformação do Homem é profusamente estudada por Kinsey em "Sexual Behaviour in the Human Female", W.B. Saunders Company, Publishers). Mas para salvação de Chapeuzinho apareceram os lenhadores, mataram cuidadosamente o Lobo, depois de verificar a localização da Avó através de Roentgenfotografia. E Chapeuzinho Vermelho viveu tranquila 57 anos, que é a média de vida humana segundo Maltus, Thomas Robert, economista inglês nascido em 1766, em Rookew, pequena propriedade de seu pai, que foi grande amigo de Rousseau. 

 

Extraído do livro  "Lições de um Ignorante", José Álvaro Editor - Rio de Janeiro, 1967, pág. 31

 

 

música: Rammstein; Marilyn Manson; Diamanda Galás

publicado por Brama às 03:10
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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Imagem distorcida!

Saio de casa após um desmotivante dia de início de aulas, igual a tantos outros em anos anteriores. Os anseios iguais ou piores, os alunos bufam porque após meses de férias, o último lugar que anseiam é o da sala de aula, após vários meses sem aulas, a tradicional curiosidade da primeira aula, existente até no aluno mais absentista, dá lugar a uma incrível sensação de temporário aprisionamento que, deseja-se acima de tudo, não chegar aos 90 minutos de aula, uma vez que se trata do primeiro momento do ano. Saio de casa com uma colega que, entretanto veio lanchar comigo e vou comprar alguns víveres para estupidamente teimar em manter a minha permanência neste lugar. Penso, penso demais, não vejo alternativas imediatas, soluções que possam acalmar-me, tal como eles, sinto-me aprisionado num lugar com que não me identifico, numa missão que não é a minha porque não é esta, martelado por uma solidão multiforme, ruidosa e esmagadora. Anseio chegar a casa rapidamente, como se fugisse de um psicopata sem rosto e sem nome, anseio recolher-me no único sítio que ainda é o meu, apesar de diminuto é o meu resguardo. Desconfortavelmente chego, carregado de sacos de supermercado e garrafas de água que, arrasto esperando não me cruzar com ninguém a quem tenha de dar saudação de circunstância. Sinto-me despido de mim próprio, despido da minha essência, o coração oprimido por um aperto horrível, acelero o passo porque sinto-me no limite da minha resistência, o interior numa convulsão que ameaça rebentar ... desejo que passe depressa e ... já estou novamente com ideias suicidas ... por vezes é como se não visionasse outra alternativa para tantos tormentos que me assaltam um dia e outro, parece estar ali tão perto, tão acessível, tangível ... refugio-me na imagem da minha prima, da minha idade, expressão lívida de morte, ser agora inanimado, subterfúgio único que no momento me acorre ... não consigo. Continuo a acelerar até ao prédio, tal abstracção que nem sinto o peso dos sacos que transporto ... sem compreender a razão de tal fuga, anseio por entrar no prédio onde vivo  e no elevador. Depois percebo ... o elevador abre-se e entro, observo-me ao espelho, observo-me demoradamente naqueles dez ou doze segundos de movimento ascendente ... acalmo-me, não sou real. Ou serei?! que faço aqui, não é aqui o meu lugar ... mas onde será então?! Observo-me e vejo com nitidez que não expresso o que me vai na alma, terei perdido a minha genuinidade?! terei aprendido naturalmente a esconder a minha essência sob uma capa social?! ... é que aquela pessoa que vejo não posso ser eu ... gosto porém do que vejo, gosto bastante ... aquele brilho vivo do olhar que parece sorrir será o prenúncio se uma certa esperança que se imiscui no meu muro de desalento, no muro que construí  com o tempo ... não compreendo o antagonismo entre o meu exterior e o meu interior. Depois percebo ... compreendo a minha necessidade em ter tantas fotos minhas em casa ... percebo agora que pode não passar apenas por uma questão narcisista que muito referem ... apercebo-me da minha necessidade, da sede de me confrontar sistematicamente com a minha imagem, ela acalma-me, apazigua a minha mortificação, tem uma luz que parece não habitar nas minhas trevas internas, que como recurso último abracei. Acalmo-me então ... não aparento o meu dilacerado interior, pareço tranquilo ... afinal terei aprendido a mentir com eficácia, exponho com categoria o pior dos defeitos ou talvez o que mais me enraivece ... acalmo-me, reforço-me ... amanhã será outro dia ... igual talvez ... mas o Sol também está só e ... persiste em brilhar.

 

                                                                            Brama

sinto-me:

publicado por Brama às 22:21
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Uma Vida!

Uma entrada a explodir de vida, salpicada de tons claros, meticulosamente combinados, rosa e amarelo, tons leves, uma combinação que prevê feminilidade, um hall que convida, que celebra a Vida. Do lado esquerdo imediatamente a seguir ao umbral da porta, quando se entra, quatro pequenas telas expostas verticalmente, brancas, salpicadas diferenciadamente de rosa e amarelo, sobre uma jarra de madeira, com ramos simples de flores secas, rosa e amarelo. Do lado direito, duas telas quadradas, não justapostas, uma com uma rosa dobrada amarela junto à porta, outra a seguir com uma rosa rosa, um pouco mais afastada, colocadas imediatamente acima de uma mesinha tom faia, sobre esta uma jarra de metal mate pequena, redonda, pontilhada de flores secas e alguns ramos secos em espiral, ao lado de uma pequena moldura em madeira clara rústica, com uma fotografia de quem fica. Em frente, acompanhando o comprimento do pequeno corredor-hall, quatro fotografias dos que continuam, emolduradas por quatro molduras rústicas de tons acastanhados. Sobre o monóculo da entrada um “espanta-espíritos” multicolor, tão pouco condizente com a finalidade. Seguindo pelo lado direito, de quem entra, ao fundo, um pequeno e perfumado w.c., cuidadosamente decorado. Ao lado a entrada de uma pequena sala escritório que apela a uma morosa permanência, meticulosamente pensada em diversos, mas cuidadosos tons de azul, leves e frescos, uma surpreendente articulação decorativa, em que os vários objectos parecem ter um lugar mais que perfeito, a ausência de um computador apenas,  já desnecessário no seu lugar, uma apelativa combinação que agrada à mais inestética das cores. Imediatamente ao lado da pequena sala escritório, um pequeno quarto, tão simples na decoração quanto perfeito na organização, uma simples cama, um camiseiro, um pequeno televisor sobre o camiseiro, duas mesinhas de cabeceira, antes cada uma para um corpo, um roupeiro, asfixiante de perfeição, as várias peças de vestuário expostas sem inadvertida falha, sem inexactidão, vertiginosamente engomada, clamando por moldarem um corpo, numa gaveta cuecas, noutra meias, noutra cintos, noutra ainda…perfumes, vários, diversos, tão alinhados, tão absurdamente guardados. Vários porta-jóias dispersos, ricamente repletos de um mundo relativamente significante para alguns, mas tão desconhecido para outros. Voltando atrás e imediatamente ao lado do w.c. acompanhando a parede do lado direito de quem entra, um roupeiro que se abre por umas mãos trémulas, agonizantes, por uns olhos de visceral inaceitação, expondo um universo de perplexidade no brio, no esmero dos elaborados critérios que presidiram a tão intocável perfeição … prateleiras pulsantes de vida que já não é, de blusas e blusinhas que não esquecem nenhuma das milhentas combinações do espectro electromagnético, articuladas por tons e texturas, imediatamente abaixo gavetas que escondem outros tecidos, milimetricamente dobrados por quem desespera com  o desalinho, ao lado, casacos e blusões e conjuntos de toalhas que gritam por já não cumprir a sua função … um universo que nos pasma, nos deixa demoradamente em silêncio camuflando o estridente e ensurdecedor tumulto interno, a venosa histeria que percorre o corpo. Do lado esquerdo, de quem entra, primeiramente a ampla e luminosa cozinha, tão luminosa, tão ampla, tão luminosamente fria. Ao fundo, do lado esquerdo, de quem entra, uma salinha de estar, pouco ocupada no início, fatidicamente ocupada no fim,  leve na apresentação, pesada na significação, em tons amarelos, amarelo clarinho, amarelo canário, amarelo limão, amarelo girassol, amarelo sol, amarelo torrado, amarelo Vida … uma mesinha em frente com cadeiras, o sofá do eterno descanso ao lado, um móvel com um televisor, um móvel despido de objectos, apenas com uma

vitrine expondo assimetricamente três elefantes em pedra, com a tromba levantada em sinal de sorte e prosperidade, uns maravilhosos cortinados em organza amarelos com relevos de malmequeres amarelos, uma mesinha ao lado do sofá com os que já partiram (pai e filha), um sofá amarelo, o do sono eterno, com belíssimos ramos florais e uns cartões com sofridas palavras de sangue dos que ficaram. Outrora, uma casa tão cheia, tão viva, plena de juventude, de sonhos, de magia, de frescura, de estima, de luz … agora … vazia … morta … antes de seu tempo, fechada.  

        (em memória da minha prima, incompreensivelmente falecida aos 32 anos)

                                                                                                       Brama

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publicado por Brama às 05:24
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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim ...

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente ...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

                                                                         Florbela Espanca

 

 

(sim eu sei que toda a gente está cansada de ouvir este belíssimo soneto de Florbela Espanca, ainda mais quando o conhece por ter sido musicalmente divulgado por Luís Represas, mas o objectivo não é impressionar ninguém ... simplesmente apeteceu-me escrevê-lo quase como uma espécie de homenagem a esta grande poetisa alentejana, nascida em Vila Viçosa. É um soneto tão simples quanto maravilhoso, eu considerá-lo-ia perfeito ... fico sempre emocionado quando o leio, revela uma sensibilidade indescritível)

sinto-me:

publicado por Brama às 01:23
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