X: _ Estou farto de conversas triviais, repetições de banalidades e discurso estéril. Não se aprende nada.
Y: _ Pois olha, eu estou é farto de gente que se arma em muito intelectual e não consegue descer desse pedestal de convencida sabedoria.
X: _ Quando é demais também aborrece, é um facto. Mas cansam-me aquelas conversinhas de “trazer por casa” … discurso incipiente que não adianta e talvez, só atrase. No final o que é que fica? O que é que se aprende que nos faça crescer como supostos seres dotados de racionalidade e inteligência?
Y: _ Poderá não trazer nada … mas também depende do contexto. Mas digo-te, conversas muito elaboradas com discurso complexo, por vezes imperceptível para a generalidade dos ouvintes, deambulações etéreas que depois de espremidas não resolvem questões práticas da nossa vida, também não passam de uma desnecessária ostentação de suposta sabedoria.
X: _ É um facto. O ideal é encontrar aí um equilíbrio. O grande problema é definir esse equilíbrio. Por norma, as pessoas movem-se nos extremos, ou têm um discurso sistematicamente vazio e corrente, ou armam-se em rotineiros intelectuais ou aspirantes a alegada intelectualidade (os comummente apelidados de pseudo-intelectuais) . Ambos se tornam chatos, mas continuo a optar pelos segundos. Pelo menos, fico com a sensação de que aprendi algo.
Y: _ Continuo a achar que depende do contexto. Eu gosto de ter conversas interessantes e das quais retiro proveito real mas, quando por exemplo saímos pela noite dentro, prefiro não ocupar a cabeça com elaboradas dissertações. Por favor!!! … passamos a semana a trabalhar, a ter de dar resposta a n coisas, obrigações profissionais e pessoais. Deixem-me pelo menos descontrair a cabeça ao fim-de-semana e ter as tais conversas banais, que muitas vezes nos divertem, nos deixam mais soltos e não massacram o cérebro.
X: _ Sim, concordo. Quantas vezes prefiro exactamente não ter de me ocupar com complicados raciocínios. A mente também precisa relaxar. O problema reside tão somente no facto de que, na maioria das vezes, estas conversas do dia-a-dia, acabam por ser isso mesmo, diárias e portanto, mais frequentes que a medida do desejável e no final, ficamos com a desagradável sensação que perdemos demasiado tempo útil com generalidades.
Y: _ Pois … seja como for. Continuo a ter mais paciência para estas conversas de gente simples, que muitas vezes o é genuinamente do que, alimentar o exibicionismo dos tais “candidatos a intelectuais”, cheios de manias de que sabem tudo. Quantas vezes são incapazes de resolver situações concretas da vida, porque se mantêm nos seus “casulinhos de intocável cognição”, estando afastados da Sociedade real e martirizando as cabecinhas com pensamentos desprovidos de sentido.
X: _ Também não tem forçosamente de ser em vão. Acho que há sempre benefícios a retirar de uma conversa mais elevada, ainda que pouco inteligível ou aplicável à prática quotidiana. Somos seres racionais e raciocinar, reflectir, equacionar determinados assuntos será sempre proveitoso à nossa capacidade de percepcionar e sentir o mundo que nos rodeia e a relação com o outro.
Y: _ Olha dou-te um exemplo e que tem até relação com a nossa profissão. Leccionei há anos numa escola em que um grupinho de colegas decidiu pôr em prática uma tertúlia semanal alusiva a um tema qualquer, que mudava semanalmente. Depois cada um fazia uma exaustiva pesquisa semanal para debater e trocar impressões em grupo. Sabes o que acabou por acontecer? Essas tertúlias, que poderiam ter sido promissoras discussões de ideias, acabaram por se tornar num tipo de campeonato em que cada um mostrava o que sabia, unicamente com o intuito de brilhar junto dos colegas e alimentar o próprio ego.
X:_ Como se fossem pavões emplumados em época de acasalamento, que competem para exibir quem tem a mais brilhante, colorida e bela cauda!
Y: _ Exactamente … Não há pachorra para isso, sinceramente. É inútil esse tipo de exibicionismo. Se pensares bem, constatarás que a grande maioria das pessoas prende-se muitas vezes com grandes intelectualidades, não com o fim exclusivo de explicitar ou esclarecer mas, para se evidenciar junto dos outros. Mais do que uma preocupação cognitiva, está em causa o conceito de auto-imagem, afirmação e acima de tudo, a opinião dos outros. Raras vezes se adianta algo de proveitoso, por exemplo, na resolução das questões primordiais do Homem.
X: _ Poderás ter parte de razão e o raciocínio faz sentido. No entanto, não creio que estas conversas se traduzam apenas num objectivo único de auto-afirmação perante os outros. Ao aprendermos algo mais, também enriquecemos interiormente e secundarizo a questão do exibicionismo. Continuo a preferir aprender mais e deixar para segundo plano a intenção.
Brama
De graduated_Fool a 8 de Maio de 2008 às 18:34
Podias ter colocado uma pata choca ao lado do pavão. lol
Eu deambulo entre o X e o Y, em termos de gostos. Ora prefiro momentos com pessoas simples que nada de especial têm para dizer, mas que são agradáveis, simpáticas, sorridentes (sem serem absolutos burros desinteressantes, neandertais, boçais)... ora prefiro gente que me faça pensar, que me ouça e entenda, que me ensine algo. O ideal será mesmo juntar as várias características. Gente humilde, simpática com inteligência, cultura e interesse. Não é mesmo nada, nada fácil.
Temos de tudo, amigo.
De
pinguim a 8 de Maio de 2008 às 23:48
A palavra chave é mesmo"equilíbrio"!!!
Já foi tudo dito... :)
Por mim confesso que sou uma pessoa simples. A maior parte das vezes aprendo mais com a sabedoria popular do que com conversas de pseudo-intelectuais nos cafés da praça... mas depende de quem fala e do que se fala.
Não vou esconder, no entanto, que às vezes me sufoca o completo vazio cultural e intelectual em que vivemos... mas é coisa que passa depois de um bom livro ou um bom filme...
Só a minha perspectiva pessoal numa coisa que não foi focada: um intelectual é forçosamente uma pessoa que investiu muito tempo na sua formação pessoal, e que por falta de público inteligente, quando se apercebe da sua possibilidade de brilhar, ostenta-o para além do razoável e incomoda os outros.
Contudo, mesmo um intelectual tem dias leves e suaves, em que se dá mais valor ao sentir que ao pensar... é tudo uma questão de fases e de oportunidades.
Acho que acabei por repetir por outras palavras o que disseste, mas a minha maneira de agir é porventura diferente... não gosto mto de intelectuais, prefiro gastar o meu tempo com pessoas de quem gosto: sentir em detrimento de pensar e crescer. Será só uma fase? Não sei, mas não me apetece investir em mim e depois ficar arredada do que é verdadeiramente importante.
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