Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Sonhos

 

 

A pedido do Paulo “Felizes Juntos” e de Thetalesmaker e já que vim a casa de fugida e o ambiente é apropriadamente nostálgico, sinto-me confortável, tenho uma janela aberta para a praça ao meu lado direito, onde é possível percepcionar uma luminosidade agradável, está uma temperatura amena e cai uma chuvinha que escorre pela vidraça, vou escrever um pouco sobre sonhos … apenas alguns, daqueles que de utopia não passam evidentemente … só falarei de alguns. Para conferir um carácter ainda mais intenso à ambiência já em si propícia, acendi um incenso (aroma Jasmim da Loja do Gato Preto), que confesso já me estar a provocar uma certa dor de cabeça, grrrrr e acendi três velas que iluminam três cabeças de budas vermelhas. Para dar um toque final reforçando o ambiente que criei e torná-lo num momento só meu, coloquei na aparelhagem um álbum dos Sigur Rós, aquele que é todo branco, não tem título, nada escrito para que, segundo os elementos deste grupo islandês, os fãs possam escrever exactamente aquilo que quiserem no bloquinho interior. Da mesma forma, vou descolar-me por momentos deste planeta massacrado e massacrante e evadir-me momentaneamente de uma realidade, desta realidade e falar dos sonhos que exactamente me apetecer.

 

Sonho 1 – seguindo o raciocínio da minha amiga Suspeita, sonho em não viver em permanente sobressalto com a possibilidade de, cada vez que estou com aqueles que gosto e amo, estar mesmo pela última vez

 

Sonho 2 – sonho também com a possibilidade de apagar o fantasma de sequer imaginar as pessoas que são importantes para mim, ficarem de alguma forma inválidas ou presas sofridamente a uma cama de hospital até ao suspiro final

 

Sonho 3 – sonho em poder viver numa espécie de loteamento estilo vila italiana, onde fosse possível estar com todos aqueles de quem gosto, todos juntos

 

Sonho 4 – sonho em reunir uma vez que fosse, todos aqueles e aquelas que já passaram pela minha vida, juntá-los todos no mesmo espaço e percepcionar à distância que ligações estabeleceriam, como se desencadearia a conversação entre os diferentes elementos

 

Sonho 5 – sonho em ter a oportunidade de conhecer, nem que por um momento, a minha mãe … sentir o seu abraço e percepcionar o seu sorriso e o seu olhar e segredar-me ao ouvido que não tenho nada a temer e que um dia me poderei juntar à sua companhia … para depois desaparecer para sempre

 

Sonho 6 – sonho em abrir uma porta imensa e sentir-me invadido por uma luz radiosa, um Sol acolhedor, com uma escadaria imensa à minha frente sobre um relvado fresco que fosse desembocar a um lago calmo, tranquilo, translúcido em redor do qual brincassem crianças e animais, conversassem serenamente outras pessoas … todos efectivamente felizes, saudáveis, com tempo para rirem, se olharem, se tocarem (esta é a minha vertente Jeová … embora não acredite nela atenção!)

 

Sonho 7 – sonho em não ter de andar a correr contra o tempo, um tempo que flui inexoravelmente

 

Sonho 8 – sonho em não ter de acordar para ser bombardeado de manhã à noite com notícias de mortes, atentados, violência contra semelhantes e outros animais, fome que grassa, enfermidade, pobreza, violação, tortura, corrupção dos líderes, crime organizado ou, como ainda hoje mal acordei, com a novidade quase proferida bombasticamente como se de algo bom se tratasse, de que, ontem foi batido o record do número de acidentes de viação em Portugal, cerca de 580 num só dia, excelente! … por favor poupem-me.

É de salientar que este sonho não é extensível à ministra da educação e respectivo secretário, ao primeiro – ministro, à restante comitiva e à generalidade dos deputados, gestores, administradores e dirigentes desportivos, … bem como, ao Bush. Esses seres não estão abrangidos pelos meus bons sonhos, que se note!!!

 

Sonho 9 – sonho em que o Homem deixe de ter a pretensão de que o que de bom lhe acontece derive de mão divina. Só agora pereceram cerca de 10 000 pessoas no Bangladesh, muitos deles já antes e irremediavelmente  pobres … coitados, o valor do bem Vida para estes deve ser menos valioso do que para outros … Deus não lhes estendeu a mão

 

Sonho 10 – sonho em que o Homem valorize o que é realmente de valorizar

 

Sonho 11 – (descendo à Terra porque não me cabe resolver os males do mundo), sonho em poder viajar pelo mundo, conhecer outras realidades diferentes da minha, sentir outras formas de percepcionar a vida, contactar com outras gentes, outras culturas, outros odores e aromas e com tudo isso, enriquecer pessoalmente e perspectivar o mundo de outros ângulos, mas com conhecimento in loco dessas realidades

 

 

 

 

 

…. E chega de sonhos por agora …

a chuva acalmou … vou então partilhar um dos mais belos sonhos que já tive e mais de uma vez, estranhamente o mesmo.

 

Observei-me a mim próprio reanimando numa pequena canoa que, se aproximava calmamente da costa de uma ilhota, num mar sereno e batido por um Sol imenso. A canoa parou naturalmente, como se por si própria soubesse que era ali o local. No mesmo instante saltei da canoa e deambulei um pouco pela praia, antes de penetrar pelo interior arborizado da ilha. Apercebo-me da particularidade da ilha, muito diferente de todas as ilhas que já havia visto ou imaginado. A ilha estava absolutamente repleta de árvores enormes, frondosas, bastante altas mas de uma serenidade apelativa; completamente repletas de cachos de flores brancas que sistematicamente caíam como se de penas se tratasse, deixando um maravilhoso aroma adocicado na atmosfera embriagante. Senti-me envolto de uma felicidade fervorosa, de uma total paz interior e quase instintivamente sigo por um caminho de terra batida bordejado por um fofinho estrato herbáceo. Enquanto caminho, olho atentamente em redor e confirmo a grandiosidade daqueles seres vegetais que me acompanham no percurso parecendo dar-me as boas vindas e recebendo-me como se tivesse sido sempre ali o meu lugar, celebrando essa esperada chegada com o aroma libertado e os cachos de flores que entretanto, quase como uma chuvinha de prata, se espalham na atmosfera de toda a pequena ilha. Ao longe avisto uma casa em pedra com um ar bem rústico, uma pequena casa no meio do arvoredo, onde termina o caminho que sigo. Sei que é para lá que devo dirigir-me e ansiosamente acelero o passo. A uns metros de alcançar o objectivo, acordo mais uma vez … mas não consigo irritar-me porque estou tranquilo.

 

                                                                                                                   Brama  

   

 

 

 
 
música: Sigur Rós - Njosnavelin
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publicado por Brama às 12:24
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13 comentários:
De Paulo a 20 de Novembro de 2007 às 23:23
Brama, que texto imenso, não em extensão, mas em riqueza de pontos para comentar. Como já te tinha dito, falarias do que que quisesses e da forma como quisesses. Claro que gente complicada nunca cumpre as instruções e vai sempre acrescentando mais qualquer coisinha (eu também o fiz! :))
O cenário envolvente à escrita parece-me muito propício, mas com Sigur Rós, sair-me-ia algo muito mais depressivo. Mas, vamos aos pontos ou sonhos:
1. estes sobressaltos são do pior. No entanto, o menino já devia ter percebido e, ainda por cima com o nome Brama, que ou desaparecemos para a luz ou nos voltamos a encontrar.
2. as pessoas são importantes para ti e para os outros. O sofrimento é atroz, mas terás de compreender o que lhes acontece de outra forma (acho eu, claro).
3. loteamento tb pode ser (ah, afinal, além de Barcelona ou Veneza, tb pode ser na Toscana) :))
4. tb já pensei nisso. Mas a alguns era mesmo para lhes dar na cara. Era uma experiência e pêras. Daria um estudo sociológico!
5. esta parte comoveu-me sobremaneira, obviamente. E logo eu, que se pudesse lhe daria o paraíso. nem quero imaginar perdê-la!
6. o sol é das "coisas" mais importantes que conheço. Basicamente, este lugar é o paraíso, muito Jeová, claro :)). Quero um assim para mim!
7. o tempo... esse monstrinho danado. Odeio-o, mas que me vale isso.
8. concordo! E adorei a tua selecção de excepções. Acho que acrescentava mais uns quantos estrangeiros.
9. quer o bom quer o mau. Acho que acredito. E como acredito que a Terra não suporta tanta gente... E como não vejo a morte como definitiva...
10. é tão subjectivo que dá espaço inclusive às atrocidades.
11. desde que sejam formas positivas, também concordo contigo: viajar. E viajo tão pouco...

Quanto ao outro sonho: lindo e acho que compreendo a tranquilidade que sentiste depois.
Um abraço
(e obrigado por responderes ao desafio)
(não revi nada do que escrevi... se tiver dito porcaria, ignora!)


De Brama a 21 de Novembro de 2007 às 15:07
Não disseste porcaria nenhuma, está tudo bem dito e obrigado pelo extensíssimo comentário ... Compreendi a tua postura nos vários pontos analisados e em alguns pontos gostaria de encarar as coisas exactamente como referes encarar ou aconselhas encarar ... só não percebi bem o teu comentário ao sonho 9.

Eu percebo a tua perspectiva positiva ,mas sinceramente não consigo chegar ao ponto de compreender o sofrimento de outras pessoas que ame, acho mesmo que não é necessário tal estado mesmo que ele derive do equilíbrio de outras falhas ou tenha um propósito concreto no além ou na Terra.


De Paulo a 23 de Novembro de 2007 às 23:29
Ainda bem que não disse porcaria nenhuma! Quanto ao ponto 9, vou tentar refazer o enigma :): falas de agradecer ao divino o que é bom... eu acrescento o mau. E acho que acredito numa forma de divino, como acredito que a natureza tenta arranjar formas de controlar o sobrepopulacionamento (não sei se a palavra existe, mas espero que se perceba a ideia). Acrescentei a questão da morte: acredito na reencarnação, cada vez mais. Provavelmente, é uma forma simples de desviar o medo da morte, mas há tantas coincidências estranhas que...
Um abraço, Brama


De The Tales Maker a 21 de Novembro de 2007 às 00:30
Adorei os teus sonhos. Alguns um pouco utópicos é verdade, mas vale sempre a pena acreditar.


De Brama a 21 de Novembro de 2007 às 15:09
Todos eles são utópicos à excepção do último que, dependendo das possibilidades financeiras (mínimas porque sou professor, não sou corrupto e não vivo de rendimentos), será possível ou não concretizar


De Maria a 21 de Novembro de 2007 às 10:05
Os nossos sonhos são sempre grandes, enormes... Mas faz bem sonhar!!


De Brama a 21 de Novembro de 2007 às 15:14
Eu preferia não sonhar ... não faz bem nenhum, só aumenta o vazio que há em nós ... preferia viver plenamente, exactamente com o que tenho e sou e não ambicionar nada além disso


De hydrargirum a 21 de Novembro de 2007 às 10:35
Eu li tudo com mta atenção...mas aquilo que gostava de dizer...por aqui perde todo o efeito...por isso "calo-me" e contemplo!....

Vou apenas fazer uma referência ao teu sonho 5...Se eu tivesse "poder"....gostava de to conceder...!

Gostei da atmosfera que criaste para escrever...qs que senti o cheiro do incenso e a luz das velas!


De Brama a 21 de Novembro de 2007 às 15:13
Muito obrigado pelo teu comentário ... não precisas dizer nada, o silêncio por vezes diz muito mais


De corrosivojr a 21 de Novembro de 2007 às 12:07
E o sonho, ainda, comanda a vida... curioso o teu sonho... será um reflexo dos teus desejos mais profundos?


De Brama a 21 de Novembro de 2007 às 15:16
Aqui estão expressos alguns dos meus desejos mais profundos sim. Não todos, mas também não pretendo falar de todos, chegam estes


De graduated Fool a 21 de Novembro de 2007 às 18:48
Conhecia quase todos. O referente à tua mãe levou-me às lágrimas mesmo (porque pensei na minha que merece uma estátua do tamanho do mundo, porque pensei em vários momentos em que falaste da tua, porque tantas, tantas coisas).
Um beijinho muito terno.
Não quero dizer mais nada.


De mar a 24 de Novembro de 2007 às 08:40
Que sonhos interessantes! E dizem tanto sobre quem és...`´E tão bom que existas e que faças parte da minha vida! Beijinhos


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